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Principais
limitações da escrita como ferramenta de diagnóstico de personalidade
Se o estudo da escrita com o objectivo
de um conhecimento humano aprofundado possui inúmeras potencialidades, não
deixa de ter também as suas limitações:
A
idade É
sempre necessário saber a idade do
sujeito a estudar através da sua escrita. É a partir da idade real que podem
ser tiradas conclusões sobre a idade psíquica. Uma escrita muito tremida e
sacudida pode ser normal num idoso, mas anormal num jovem. Sem sabermos a idade,
praticamente não podemos tirar qualquer conclusão aprofundada sobre a escrita
de alguém.
O
sexo É
também sempre necessário saber o
sexo. Sem o sabermos, é praticamente impossível fazer qualquer tipo de diagnóstico
de personalidade, uma vez que todas as predisposições e tendências
diagnosticadas serão geridas de forma diferente conforme se trate de um homem
ou de uma mulher. Uma escrita muito arredondada numa mulher não reflecte
qualquer fuga em relação ao padrão cultural. Num homem, no entanto, é um
aspecto muito importante e influencia todo o sentido do relatório.
A
profissão e os estratos social, económico e cultural Algumas
profissões podem favorecer formas próprias na escrita, que poderão assim ser
compreendidas. Existem também determinados padrões formais que são adoptados
por certas classes profissionais, por uma questão de modelo social. Por
exemplo, uma professora experiente do 1º ano do ensino básico poderá ter uma
escrita com muito maior preocupação com a forma, por hábito e necessidade de
a ensinar às crianças. Todos nós facilmente dizemos que uma determinada
escrita é de médico se for ilegível
e estendida, bem como podemos chamar a uma escrita com pouco espaço, muito
regular e monótona, uma escrita de notário.
A assinatura de Pélé enfatiza a forma de uma bola e mesmo o acento é circular. Existem muitíssimos outros exemplos concretos da influência da profissão nos modelos utilizados na escrita, em especial nas assinaturas, onde existe maior liberdade na escolha das formas.
De
facto, algumas profissões permitem uma maior adopção de determinados modelos,
em vez de outros. Este factor deve sempre ser tido em conta. Também temos de
ter em conta que, em certas assinaturas, um determinado símbolo ou gesto típico
de uma determinada profissão pode explicar alguns tipos de rubricas. Outro
exemplo que mostra a importância de conhecer a profissão e habilitações de
quem escreve: uma escrita que imita de forma fruste o modelo caligráfico
adquirido na infância pode ser normal num homem que apenas fez o 4º ano de
escolaridade e, ao longo da sua vida, nunca teve grandes oportunidades para
escrever, mas este passa a ser elemento importante num homem com formação
superior e com muito hábito de escrever. Uma escrita com um modelo
maioritariamente tipográfico terá menor significado numa pessoa com muitos
estudos (com hábitos de leitura) do que numa pessoa apenas com a 4ª classe.
É partindo do contexto social, económico e cultural que podemos avaliar a
escolha ou não de um determinado modelo de escrita.
A
escrita de crianças O
grafismo das crianças que ainda aprendem a escrever não pode ser estudado da
mesma forma que o de um adulto habituado a fazê-lo. É mais difícil estudar a
escrita de uma criança e também os resultados são muitíssimo menos
aprofundados. A razão é simples: a criança ainda não assimilou totalmente o
gesto de escrever. Ainda olha para o que escreve, procurando desenhar cada letra
conforme o professor ensinou. A escrita das crianças é ainda uma forma de cópia
desenhada de modelos caligráficos predefinidos. Apesar de possuir já conteúdos
inconscientes (como qualquer acto humano) estes são mais difíceis de detectar,
porque o gesto é muito pouco espontâneo. Por outro lado, vários dos aspectos
formais da escrita das crianças não têm origem nos mesmos impulsos diagnosticáveis
para a escrita de um adulto. Tomemos o exemplo das soldagens: traços com a
mesma direcção, que deveriam ser traçados de uma só vez, não o são, por
incapacidade. O traçado acaba por ser uma sucessão de traços soldados
(quebrados e disfarçados). Num adulto, uma escrita com constantes soldagens é
um sinal altamente anormal e preocupante. Numa criança de sete anos, este
aspecto é normal e está relacionado com a dificuldade motriz de traçar um
gesto cursivo (ligado e dinâmico) quando a criança ainda está a aprender as
letras e as interpreta como entidades isoladas. Por esta razão, não só as
soldagens são elementos normais na escrita de crianças como podem ser aceites
como itens genéticos da escrita:
quase todas as crianças passarão por essa fase para poderem adquirir a
escrita. Alguns investigadores, como Heléne de Gobineau, Roger Perron, Julien
de Ajuriaguerra e outros, constituíram mesmo uma escala de itens infantis,
baseada numa aturada investigação estatística. Os referidos itens infantis são
aspectos da escrita que não se podem estudar à luz dos pressupostos da
Psicologia da Escrita dos adultos, porque possuem causas diferentes, devidas à
própria dificuldade na aprendizagem da escrita por parte das crianças. Esta
escala de itens infantis permite sobretudo analisar a evolução da aprendizagem
da escrita por parte das crianças, servindo como um avaliador
de maturidade grafomotora. A escrita não deixa de ser muito útil na infância,
especialmente em contraste com outros testes gráficos, uma vez que o desenho
ainda é a forma mais espontânea da criança se expressar no papel. Os adultos,
por exemplo, recusam-se frequentemente a desenhar, facto que é raro suceder com
crianças. Na infância, a dificuldade geral de encontrar métodos projectivos
adequados realça ainda mais o papel da escrita, até porque, não sendo um
teste, permite a vigilância regular da evolução psicoafectiva das crianças e
a detecção de sinais de alerta,
imediatamente após o seu aparecimento.
A
escrita dos adolescentes A
adolescência é um período especial do crescimento. As mudanças na
personalidade são muito rápidas e a autonomia de vontade e maturidade estão
ainda a ser construídas. Não podem, pois, ser avaliados os aspectos da escrita
num adolescente da mesma forma como são avaliados nos adultos! Enquanto, num
adulto, a utilização da escrita como método de diagnóstico para a orientação
profissional é bastante segura, para um adolescente levanta uma série de
problemas: estes evoluem muito rapidamente e não é possível determinar
exactamente que tendências se virão a manifestar em poucos meses, quanto mais
em vários anos. Mas, precisamente pela grande variabilidade e instabilidade
deste período da vida, a Psicologia da Escrita assume um papel ainda mais
importante nesta fase do que no caso dos adultos: são adolescentes e jovens os
que mais precisam de orientamento e também os que estão mais abertos e dúcteis
a qualquer tipo de ajuda psicológica. Por outro lado, a adolescência é talvez
a fase da vida em que mais se escreve. A escrita assume aqui também um papel
importante na detecção de sinais de
alerta, imediatamente após o seu aparecimento, permitindo uma intervenção
atempada.
Outras
limitações Pelas
mesmas razões apontadas em relação às crianças, não pode ser avaliada da
mesma forma a escrita das pessoas com muito poucas ou nenhumas habilitações
escolares, que nunca aprenderam a escrever, que apenas o fizeram em parte ou
que, após terem aprendido a escrever, nunca mais utilizaram a escrita. Estas
pessoas não dominam inteiramente o acto da escrita e esta acabará por ser
muito menos espontânea. Sendo menos espontânea a escrita, menos dados poderão
ser obtidos sobre a personalidade da pessoa que escreve. É verdade que, dentro
de alguns anos, algumas classes socioprofissionais terão tendência a escrever
cada vez menos. Porém, por enquanto, a utilização da escrita na infância e
adolescência ainda é generalizada. E terá tendência a sê-lo mais ainda, com
uma cada vez maior escolarização e habilitações exigidas. Ora, tal como
nadar ou andar de bicicleta, a escrita não se desaprende, embora possa haver
alguma desadaptação ou entorpecimento motriz quando se escreve muito raramente
e apenas amostras muito pequenas.
As
amostras com propósito de estudo Um
estudo deve ser preferencialmente feito com base em escritos que não foram
propositadamente realizados para análise, onde não tenha existido qualquer
tipo de constrangimento. No entanto, muitas vezes tal não é possível. Nos
casos em que a pessoa escreve propositadamente para um estudo, este poderá ser
igualmente realizado, não aumentando muito a margem de erro. Porém, certas
pessoas podem-se impressionar ou constranger em demasia e quebrar ou agitar o
gesto gráfico. A não habituação a um determinado suporte gráfico pode também
inibir a pessoa e induzir em alguns erros de análise, que, apesar de serem mínimos,
não são de menosprezar quando o objectivo é a maior segurança possível no
diagnóstico. Se o especialista não estiver avisado sobre o contexto em que foi
produzida a amostra, poderá julgar esse constrangimento como um traço normal
na personalidade.
Temos, pois, de ter em
conta os seguintes factores:
A escolha da caneta e da dimensão e
formato do papel.
No caso de uma amostra produzida num local pré-determinado, a pessoa a estudar
deverá poder optar pelo tipo de folha ou caneta com que quer escrever.
Certamente escolherá o tipo e tamanho de folha a que está habituada, bem como
um determinado tipo de caneta. Uma pessoa que possua uma escrita muito pequena e
que escreva sempre com esferográfica de ponta fina, se lhe for dada uma caneta
de feltro para escrever, das duas uma, ou irá aumentar o tamanho geral do
grafismo para que as letras fiquem bem visíveis ou então irá escrever com o
mesmo tamanho, enchendo os ovais de tinta. De um modo ou de outro, um psicólogo
da escrita não avisado poderá tirar conclusões erradas sobre o tamanho da
escrita ou sobre a sua nitidez. O mesmo se aplica no caso de uma pessoa com uma
escrita de grande dimensão, a quem é fornecida uma pequena folha para
escrever.
Bilhetes
postais. Os postais são frequentemente um espaço muito pequeno para a
quantidade de coisas que pretendemos contar sobre umas férias, por exemplo. As
amostras de bilhetes postais tendem a ser mais pequenas e desordenadas do que as
normais amostras. Sempre que possível devem ser preteridas. Envelopes. Ao contrário do que era prática corrente por parte de alguns autores clássicos franceses, as amostras escritas em envelopes devem também ser preteridas. Para os autores clássicos, os envelopes poderiam ter alguma utilidade como complemento porque, como se sabe, a normalização postal em França é mais rígida que em Portugal. Além do mais, em França, a frente do envelope só leva o endereço do destinatário. No caso português a situação é diferente. Sabemos, por exemplo, que muitas pessoas escrevem excepcionalmente em maiúsculas os endereços nos envelopes, para se assegurarem que os correios encaminharão a missiva correctamente. O estudo da escrita nos envelopes apenas terá algum interesse se for dirigido à forma como o endereço se situa espacialmente no envelope, mas sempre como complemento a outras amostras.
Se
pensarmos que, com uma caneta de tinta permanente, uma mínima paragem no gesto
de escrever pode deixar também um minúsculo borrão, podemos desde logo
perceber que situações opostas podem causar o mesmo efeito aparente. Daí que
seja necessário, ante uma amostra, saber desde logo que tipo de caneta a
produziu e se esta estaria a funcionar bem ou não. As antigas canetas de ponta,
que largavam mais ou menos tinta conforme a posição e o ângulo formados em
relação à folha, forneciam muito mais informação ao especialista porque
permitiam conhecer exactamente a posição da caneta em relação ao papel
durante todo o manuscrito. No entanto, estas canetas, nas mãos de quem nunca
com elas escreveu, produzem grande constrangimento e inibição, daí que nunca
devam ser utilizadas nestas circunstâncias. Cor
da caneta.
Parece provado estatisticamente que no grupo de pessoas que tendem a escrever
sempre com caneta preta existe uma maior percentagem relativa de sujeitos
depressivos do que no grupo de pessoas que tendem a escrever sempre com caneta
azul. Este fenómeno assume maior significado na adolescência, por ser uma fase
em que a experimentação de sensações gráficas é maior: escrever usualmente
com esferográficas de cor roxa, verde, vermelha ou castanha é típico da
adolescência. No entanto, salvo algumas excepções, qualquer pessoa muda a cor
da caneta sem grandes constrangimentos, pelo que a cor da caneta é um factor a
ter em conta, sim, mas de pouca importância relativa.
As cartas de apresentação e os currículos
manuscritos. Muitas vezes, a
grande tensão emocional a que um sujeito pode ser submetido quando escreve uma
carta de apresentação para concorrer a um emprego, pode gerar algumas alterações
na escrita. Um novo emprego poderá significar uma grande mudança de vida ou o
limiar de todas as aspirações. É natural, nestes casos, que a pessoa se sinta
ansiosa e mais nervosa. No entanto, se para um outro candidato com as mesmas
aptidões e habilitações, esse novo emprego não lhe provoca qualquer tipo de
ansiedade, acabará por apresentar um grafismo com menos sinais de perturbação.
Em situações de desempate, poderá este último ser o escolhido, simplesmente
porque o psicólogo da escrita julgará apenas aquilo que possui e conhece.
Sendo assim, quanto maior for a delicadeza e a responsabilidade do estudo a
efectuar, mais necessário se torna o uso de amostras escritas em estados anímicos
normais, não efectuadas com o fim
específico do estudo. Mesmo assim, o conhecimento de que os candidatos
escreveram sobre situação de ansiedade pode também ser útil para avaliar a
resposta dada pelos candidatos perante essa situação, em especial se os
candidatos concorrem a um cargo altamente desgastante. Nestes casos, convém, no
entanto, possuir também uma amostra de contraste de cada candidato, escrita em
situação normal. Folhas
pautadas. As folhas pautadas são um acessório gráfico que refreia possíveis
tendências inconscientes a sair fora da
linha. Obrigam a escrever com um espaço padronizado entre as linhas.
Note-se que as folhas quadriculadas, por possuírem um espaço entre linhas mais
pequeno do que as normais folhas pautadas obrigam a que o sujeito escreva com as
linhas mais apertadas ou com um linha de intervalo. Em ambos os casos, a apreciação
do espaço entre linhas sai falseada. As amostras realizadas em folhas sem pauta
devem ser, sempre que possível, as preferidas para os estudos. Não sendo isso
possível, deve ter-se em atenção as limitações que uma folha pautada causa
em relação à medição do espaço entre as linhas e à própria direcção da
linha.
Folhas com margens.
Pelas mesmas razões anteriormente apontadas, também as folhas com margens
devem ser, sempre que possível, preteridas.
As fotocópias. As fotocópias
não permitem medir os aspectos mais importantes da pressão e do tipo de traço,
sendo uma grande limitação para um estudo correcto. Contudo, em alguns casos
– como em criminologia – as fotocópias podem ser o único material disponível.
Nestes casos, o especialista deve fazer o melhor que sabe, alertando no seu
parecer para as limitações sentidas.
O
tipo de suporte. Escrever directamente com a folha em cima de um suporte
duro torna o traço mais fino e aparenta uma diminuição da pressão em relação
ao mesmo traço feito numa folha apoiada num suporte mole (um caderno, por
exemplo). Convém sempre saber em que local foi redigida a amostra. Neste caso,
pode ter vantagem a recolha de amostras propositadas num local em que o psicólogo
da escrita conheça o tipo de suporte utilizado.
A assinatura e o destinatário da amostra. As amostras para estudo devem estar assinadas e devemos procurar
saber para quem foi escrita a amostra, porque o destinatário influencia, por
exemplo, o tipo de assinatura que colocamos. Uma assinatura sem contexto não
serve de nada. Deve possuir sempre texto, caso contrário, é como estar a
analisar a fotografia promocional de um filme sem nunca ter visto o filme. Se
nessa fotografia aparece um polícia, podemos apenas dizer que um dos
personagens do filme é polícia, mas não podemos logo concluir que o filme é
um policial. Pode até ser um drama ou um filme cómico. Se conhecermos o filme,
poderemos tirar conclusões sobre a razão que levou o produtor a escolher essa
fotografia promocional e não outra. Por outro lado, o conhecimento prévio do
destinatário da amostra permite também tirar algumas conclusões sobre
eventuais perturbações existentes no grafismo. Certamente serão muito
diferentes os estados de espírito de quem escreve para a amante do seu marido
ou de quem escreve para um amigo.
O modelo caligráfico de origem e/ou a época
histórica da amostra.
Deve um psicólogo da
escrita saber sempre onde aprendeu a escrever a pessoa cuja escrita será
estudada, porque os modelos caligráficos mudam de país para país. Um certo
tipo de "g" pode ser uma extravagância, de acordo com o modelo caligráfico
português, e ser algo perfeitamente normal num outro país, onde esse tipo de
"g" faz parte do modelo caligráfico ensinado às crianças. A utilização
de um determinado tipo de "g" pode ser tanto um escrupuloso seguimento
desse modelo como uma subversão total do modelo. Sem conhecermos o dito modelo
não podemos concluir nada e perde-se muita informação. Por isso, é mais difícil
para um psicólogo da escrita português estudar amostras de pessoas que
aprenderam a escrever fora de Portugal, especialmente em países com modelos
caligráficos totalmente diferentes dos nossos. Daí também o facto da maior
parte dos livros sobre o estudo da escrita à venda em Portugal, mesmo os poucos
com algum interesse, não se revestirem de grande utilidade para os portugueses:
não se baseiam nos nossos modelos caligráficos. Este trabalho é o primeiro em
Portugal que o faz.
Os modelos caligráficos também
variam conforme a época. Por essa razão, ao pretendermos estudar a escrita de
uma pessoa que viveu no século XVIII devemos ambientarmo-nos ao modelo que era
ensinado na altura e conhecermos bem essa época. Torna-se, pois, complicado
fazer diagnóstico de personalidade através da escrita de pessoas que
aprenderam a escrever numa época muito recuada, até porque existiria
certamente menor hábito de escrever do que actualmente. As
maiúsculas.
A escrita exclusivamente em maiúsculas tipográficas é, normalmente, menos
rica em informação, porque o modelo de maiúsculas não possui as três zonas
da escrita que possui o modelo caligráfico. Por outro lado, é um modelo
desligado e não cursivo, que não permite tanta espontaneidade. Aliás, muitos
escritos anónimos são em maiúsculas porque o falsificador tem consciência
que o produto final não se assemelha à sua letra cursiva, embora, na prática,
possua todos os tiques e tendências da sua caligrafia, pelo que pode ser
desmascarado. Se uma pessoa escreveu as amostras para estudo apenas com maiúsculas
tipográficas para se fazer entender, então podemos pedir-lhe que escreva em
minúsculas. Porém, se essa pessoa escreve sempre com maiúsculas em todas as
circunstâncias e é um adulto, tornar-se-á mais difícil que essa pessoa venha
a escrever propositadamente com minúsculas a nosso pedido. É relativamente fácil
conseguir que um jovem com a escrita toda em maiúsculas escreva um texto em minúsculas,
pois é nessa idade que normalmente este modelo de maiúsculas tipográficas é
assumido e ainda não está excessivamente automatizado. As razões que estão
por detrás da escolha das maiúsculas tipográficas por parte de algumas
pessoas serão objecto de um futuro trabalho nosso, já que estão muito ligadas
à problemática da adolescência.
A mão escrevente. Deve
um psicólogo da escrita saber sempre se a pessoa escreve com a mão esquerda ou
com a direita. Em situações normais, este factor não afecta determinantemente
a escrita, uma vez que esta é um acto cerebral, independente do braço que
escreve. No entanto, devem ser tidos em atenção os seguintes factores: 1.
Alguns autores defendem que os
esquerdinos, porque neles a predominância de hemisférios cerebrais é inversa
aos dextros, possuem a priori características
de personalidade próprias, em relação a estes últimos. Neste momento, ainda
não foi descrita, de forma inequívoca, uma escrita típica de esquerdinos. Não
existe, aliás, suficiente investigação sobre este assunto. No entanto, por
razões fisiológicas, certo tipo de formas caligráficas ocidentais são, em
geral, mais escolhidas por esquerdinos e o simples facto de conhecermos esta
tendência permite-nos retirar o valor à escolha dessas formas na escrita de
esquerdinos. Por exemplo, o gesto de abdução, executado pelo dextro ao seguir
uma linha da esquerda para a direita, faz com que, no final das linhas, o
sujeito que escreve tenha de produzir um determinado esforço para manter a
horizontalidade e não "fugir" para baixo. As crianças que começaram
a aprender a escrever há pouco tempo não conseguem ainda controlar essa tendência.
Daí que se pedirmos a uma criança dextra de seis anos para escrever um pequeno
texto numa folha sem linhas, estas linhas terão tendência a cair
junto à margem direita. Ora, no esquerdino pode suceder precisamente o contrário,
uma vez que o gesto que progride na folha vem de fora para dentro, significando,
pois, que o esquerdino terá de fazer um certo esforço para que a linha não
"fuja" para cima, à medida que se aproxima da margem direita da
folha. Estas pequenas observações permitem que estes
sinais sejam destituídos de valor quando percebemos porque surgem na escrita,
evitando-se assim muitas conclusões erradas. No caso de estudos referentes
a crianças e adolescentes, a folha pautada com um escrito cuidado é útil para
contrastar com um escrito mais espontâneo feito numa folha não pautada.
2.
Os esquerdinos que, na infância, foram obrigados a escrever com a mão
direita, podem ter criado uma resistência ao acto de escrever. Este aspecto é
muito importante na infância e pré-adolescência, onde está provado que os
esquerdinos contrariados vêem a sofrem muito mais vezes de disgrafia do que os
normais dextros. 3.
No caso dos esquerdinos contrariados, convém sempre saber com que mão
foi escrita a amostra a estudar. Muitas vezes, existem amostras escritas com a mão
direita, sendo esta a mão com que o esquerdino escreve pior (o esquerdino pode
escrever com a direita, mesmo que com resultados piores, para adaptar-se ao padrão
social). Nestes casos, a mão esquerda – a mais espontânea, poderá reflectir
melhor os gestos que nos permitirão tirar conclusões sobre a personalidade de
quem escreve. 4.
No caso dos ambidextros, também é provável que exista uma mão que
escreva mais à vontade do que a outra. Esta deve ser sempre a escolhida para as
amostras. No caso de amostras já realizadas por ambidextros, devemos sempre
saber se estas foram escritas, ou não, com a
"melhor mão". Normalmente, a mão direita é a melhor mão para
os ambidextros, uma vez que estes têm maior facilidade em adoptarem esta mão
para escrever, logo em criança. No entanto, existem muitos casos em que a
lateralização ambivalente na criança pode gerar problemas e estes virem a
persistir durante algum tempo, se não forem acompanhados por um terapeuta.
Contexto em que foi produzida a
amostra.
Devemos saber sempre em que condições foram escritas as amostras a analisar.
Nomeadamente: 1.
As
condições climatéricas extremas.
Um dia de muito frio geralmente contrai a escrita. Um dia de muito calor pode
originar o fenómeno oposto. Se num dia de frio o corpo tem tendência a
retrair-se e a produzir o menor movimento possível (quando em situação de
descanso), a escrita tem tendência a ficar mais pequena e tremida. Num dia de
muito calor, o corpo tem tendência a produzir gestos mais amplos e a escrita
pode ter a tendência a ficar maior. Nos dois casos extremos, os músculos e
articulações do braço podem não responder convenientemente aos estímulos
cerebrais, alterando as formas que o cérebro planeou para o papel. 2.
O
álcool, as drogas, alguns fármacos, algumas situações pós-operatórias
traumáticas. Se uma
determinada amostra foi escrita por uma pessoa sob a influência excessiva do álcool,
também a escrita sairá ligeiramente maior e mais descontrolada do que o
habitual. O álcool é um desinibidor mas também faz perder o controlo ideal
das funções vitais. Por isso o álcool é um perigo nos condutores e também
por isso uma grande parte dos ébrios não param de rir, de falar ou chorar,
conforme os casos. A influência de drogas também pode afectar a escrita,
conforme o tipo de droga e a fase de influência em que a amostra foi produzida.
Alguns fármacos – nomeadamente, anti-depressivos – podem também alterar
ligeiramente a escrita, dependo da influência que estes possam ter sobre o cérebro
ou sobre a motricidade. O mesmo se aplica a algumas situações pós-operatórias
traumáticas em que o organismo ainda não responde convenientemente. 3.
As
situações emocionais limite.
Imediatamente após ter ganho o euromilhões,
uma pessoa pode ter tendência a escrever com um gesto de maior dimensão, mais
descontrolado, mais instável e aberto. Se uma pessoa está a escrever com um
revólver apontado à cabeça ou se está a ser sujeita a um qualquer tipo de
tortura ou uma outra situação limite, a escrita também tem tendência a
alterar-se, tornando-se mais instável / quebrada, conforme os casos.
Dados adicionais importantes sobre o
sujeito a estudar.
Devemos ter em conta qualquer outro dado especial sobre a pessoa (se possui
alguma doença grave, algum problema de motricidade ou outros problemas
relevantes de foro médico). Normalmente, estas situações graves, em especial
as relacionadas com uma deficiente motricidade, podem reflectir-se na escrita.
Se conhecermos estes problemas, podemos retirar valor a uma série de aspectos
mais estranhos que possam surgir na escrita destas pessoas. Caso contrário,
podemos estar a cometer erros. Este pressuposto permite compreender a razão da
escrita servir como forma complementar de diagnóstico em certas patologias médicas,
como foi já referido anteriormente. A
quantidade de amostra mínima
Devemos estar sempre a par de todas as
circunstâncias limitadoras atrás enunciadas. Caso só tenhamos uma amostra e
saibamos que esta foi escrita debaixo de alguma destas circunstâncias,
saberemos ter isso em consideração. Obviamente que a margem de erro aumenta
ligeiramente à medida que mais circunstâncias limitadoras interferem na
escrita. Se não conhecermos todas estas circunstâncias, poderemos tomar por
normal o que é apenas circunstancial e cair num julgamento errado. Quanto
mais textos, quanto mais páginas existirem, menor é o risco de erro num estudo
deste género. Daí que seja sempre conveniente ter mais
do que uma amostra. Quantas mais amostras existirem, melhor. De preferência,
amostras escritas em diferentes épocas e diferentes situações emocionais,
especialmente se estas situações emocionais nos forem relatadas pela própria
pessoa. No caso de adolescentes, é conveniente contrastar as amostras recentes
com outras amostras anteriores, em especial da época pubertária (época de
grandes transformações na escrita). No caso de adultos, é também conveniente
possuir amostras complementares de idades mais recuadas, em especial das várias
etapas da adolescência, quando se trata de fazer perfis aprofundados de
personalidade.
Nos casos em que o material é
escasso, deve-se ter em conta que a amostra mínima para que possa ser feito
algum tipo de estudo deve preencher, pelo menos, uma folha A4. A razão é
simples: é necessário uma amostra suficientemente ampla para que possamos ter
alguma segurança quanto à espontaneidade do acto escrevente. No caso de
existir suspeita de que o sujeito escrevente procurou desenhar
uma letra diferente da sua, deve
exigir-se uma amostra maior, para que todas as maneiras de perceber o que foi
forjado possam ser destrinçadas. Por outro lado, a amostra deve ser
suficientemente grande para que se possa perceber a disposição na página e
para que possa conter várias vezes todas as letras do alfabeto, de modo a serem
comparadas as soluções apresentadas em cada letra, conforme o contexto do
gesto que é exigido perante as letras anterior e seguinte. Obviamente, uma
pequena anotação numa agenda ou uma só frase não servem para um relatório
sobre a personalidade, uma vez que a margem de erro aumentaria enormemente. Porém,
na área criminal, somos por vezes confrontados com pedidos de estudo sobre uma
só palavra ou assinatura – para determinar, por exemplo, se foi escrita por
determinada pessoa. Nestes casos, é necessário possuir bastantes amostras de
contraste.
Também não devem ser utilizadas
amostras produzidas como apontamentos de aulas ou notas de reuniões, a não ser
como amostras de contraste, para avaliar a atitude do sujeito perante situações
em que o acto de escrever é certamente mais descuidado. O conteúdo escrito de
uns apontamentos é uma reprodução do que ouvimos ou cópia do que lemos.
Alguns aspectos do estudo podem ficar limitados, especialmente em relação a
possíveis conteúdos emocionais de certas palavras. Daí que seja muito útil
fazer relatórios baseados em cartas pessoais, onde a pessoa escreve o que sente
e pensa e, ao mesmo tempo, não está demasiado preocupada com a apresentação,
como nas cartas oficiais. Em todo o caso, o contraste entre uma carta pessoal e
uma folha de apontamentos e/ou uma carta oficial também é sempre muito útil
(especialmente em relação à assinatura) para perceber a atitude do sujeito
perante as diferentes situações.
Obviamente, o conhecimento de alguns
destes factores é mais importante para determinado tipo de estudos do que para
outros. Por exemplo, para realizar um bom perfil de personalidade é essencial
saber o sexo e a idade mas não é muito importante conhecer o tipo de folha ou
de caneta utilizado. Ao contrário, para uma peritagem, o sexo e a idade poderão
ser dados menos importantes do que o tipo da caneta ou da folha.
É importante não esquecer que a
escrita não permite conhecer todo o ser
humano, e que qualquer estudo deste género possui sempre uma
margem de erro, variável conforme as circunstâncias.
Para que a margem de erro seja mínima, basta ter em atenção todas as limitações
enunciadas até aqui, o que nem sempre é possível. Por exemplo, na área da
selecção de pessoal, é muito comum que um psicólogo da escrita trabalhe
sobre amostras em quantidade insuficiente e sem poder ter conhecimento de
algumas das circunstâncias em que foram escritas, o que forçosamente origina
uma margem de erro mais elevada nos respectivos pareceres.
Por fim, existem outras limitações
de carácter ético que convém reter quando são feitos estudos de Psicologia
da Escrita, mesmo que não vigore oficialmente em Portugal qualquer código
deontológico aplicado à profissão: 1.
Nunca afirmar o que não se sabe. 2.
Nunca elaborar estudos sobre terceiros se houver alguma suspeita de que
estes servirão para os prejudicar ou se os manuscritos apresentados não
pertencerem à pessoa que requer o estudo. 3.
Não permitir o acesso de intermediários aos relatórios elaborados. A
privacidade das pessoas é um valor fundamental. 4.
Não menosprezar a utilização de outras técnicas projectivas. Estas
servem para contrastar os resultados. Na busca do conhecimento humano todas as técnicas
são sempre insuficientes. Daí que a quantidade de métodos utilizados aumente
as hipóteses de uma melhor aproximação à realidade. 5.
O papel de um psicólogo da escrita é ajudar as pessoas. Os perfis a
apresentar devem – mesmo nos traços de personalidade socialmente considerados
mais escabrosos – conter o seu lado
positivo, bem como pistas para um eventual auto-aperfeiçoamento. |
© Francisco Queiroz, 2004-2010 Última actualização: 11/17/09 |