"Towards a Handwriting Psychology" | (c) Centro de Estudos de Psicologia da Escrita | Francisco Queiroz

 

 

 

 

 

 

Principais limitações da escrita como ferramenta de diagnóstico de personalidade

por Francisco Queiroz

(adaptado do livro "Introdução à Psicologia da Escrita")

 

 

 

Se o estudo da escrita com o objectivo de um conhecimento humano aprofundado possui inúmeras potencialidades, não deixa de ter também as suas limitações:

 

A idade

É sempre necessário saber a idade do sujeito a estudar através da sua escrita. É a partir da idade real que podem ser tiradas conclusões sobre a idade psíquica. Uma escrita muito tremida e sacudida pode ser normal num idoso, mas anormal num jovem. Sem sabermos a idade, praticamente não podemos tirar qualquer conclusão aprofundada sobre a escrita de alguém.

 

O sexo

É também sempre necessário saber o sexo. Sem o sabermos, é praticamente impossível fazer qualquer tipo de diagnóstico de personalidade, uma vez que todas as predisposições e tendências diagnosticadas serão geridas de forma diferente conforme se trate de um homem ou de uma mulher. Uma escrita muito arredondada numa mulher não reflecte qualquer fuga em relação ao padrão cultural. Num homem, no entanto, é um aspecto muito importante e influencia todo o sentido do relatório.

 

A profissão e os estratos social, económico e cultural

Algumas profissões podem favorecer formas próprias na escrita, que poderão assim ser compreendidas. Existem também determinados padrões formais que são adoptados por certas classes profissionais, por uma questão de modelo social. Por exemplo, uma professora experiente do 1º ano do ensino básico poderá ter uma escrita com muito maior preocupação com a forma, por hábito e necessidade de a ensinar às crianças. Todos nós facilmente dizemos que uma determinada escrita é de médico se for ilegível e estendida, bem como podemos chamar a uma escrita com pouco espaço, muito regular e monótona, uma escrita de notário.

   

A assinatura de Pélé, enquanto futebolista, enfatiza a forma de uma bola e mesmo o acento é circular. Existem muitíssimos outros exemplos concretos da influência da profissão nos modelos utilizados na escrita, em especial nas assinaturas, onde existe maior liberdade na escolha das formas.

 

De facto, algumas profissões permitem uma maior adopção de determinados modelos, em vez de outros. Este factor deve sempre ser equacionado. Também temos de ter em conta que, em certas assinaturas, um determinado símbolo ou gesto típico de uma determinada profissão pode explicar alguns tipos de rubricas. Outro exemplo que mostra a importância de conhecer a profissão e habilitações de quem escreve: uma escrita que imita de forma fruste o modelo caligráfico adquirido na infância pode ser normal num homem que apenas fez o 4º ano de escolaridade e, ao longo da sua vida, nunca teve grandes oportunidades para escrever, mas este passa a ser elemento importante num homem com formação superior e com muito hábito de escrever. Uma escrita com um modelo maioritariamente tipográfico terá menor significado numa pessoa com muitos estudos (com hábitos de leitura) do que numa pessoa apenas com a 4ª classe. É partindo do contexto social, económico e cultural que podemos avaliar a escolha ou não de um determinado modelo de escrita.

 

A escrita de crianças

O grafismo das crianças que ainda aprendem a escrever não pode ser estudado da mesma forma que o de um adulto habituado a fazê-lo. É mais difícil estudar a escrita de uma criança e também os resultados são muitíssimo menos aprofundados. A razão é simples: a criança ainda não assimilou totalmente o gesto de escrever. Ainda olha para o que escreve, procurando desenhar cada letra conforme o professor ensinou. A escrita das crianças é ainda uma forma de cópia desenhada de modelos caligráficos predefinidos. Apesar de possuir já conteúdos inconscientes (como qualquer acto humano) estes são mais difíceis de detectar, porque o gesto é muito pouco espontâneo. Por outro lado, vários dos aspectos formais da escrita das crianças não têm origem nos mesmos impulsos diagnosticáveis para a escrita de um adulto. Tomemos o exemplo das soldagens: traços com a mesma direcção, que deveriam ser traçados de uma só vez, não o são, por incapacidade. O traçado acaba por ser uma sucessão de traços soldados (quebrados e disfarçados). Num adulto, uma escrita com constantes soldagens é um sinal altamente anormal e preocupante. Numa criança de sete anos, este aspecto é normal e está relacionado com a dificuldade motriz de traçar um gesto cursivo (ligado e dinâmico) quando a criança ainda está a aprender as letras e as interpreta como entidades isoladas. Por esta razão, não só as soldagens são elementos normais na escrita de crianças como podem ser aceites como itens genéticos da escrita: quase todas as crianças passarão por essa fase para poderem adquirir a escrita. Alguns investigadores, como Heléne de Gobineau, Roger Perron, Julien de Ajuriaguerra e outros, constituíram mesmo uma escala de itens infantis, baseada numa aturada investigação estatística. Os referidos itens infantis são aspectos da escrita que não se podem estudar à luz dos pressupostos da Psicologia da Escrita dos adultos, porque possuem causas diferentes, devidas à própria dificuldade na aprendizagem da escrita por parte das crianças. Esta escala de itens infantis permite sobretudo analisar a evolução da aprendizagem da escrita por parte das crianças, servindo como um avaliador de maturidade grafomotora. A escrita não deixa de ser muito útil na infância, especialmente em contraste com outros testes gráficos, uma vez que o desenho ainda é a forma mais espontânea da criança se expressar no papel. Os adultos, por exemplo, recusam-se frequentemente a desenhar, facto que é raro suceder com crianças. Na infância, a dificuldade geral de encontrar métodos projectivos adequados realça ainda mais o papel da escrita, até porque, não sendo um teste, permite a vigilância regular da evolução psicoafectiva das crianças e a detecção de sinais de alerta, imediatamente após o seu aparecimento.

 

A escrita dos adolescentes

A adolescência é um período especial do crescimento. As mudanças na personalidade são muito rápidas e a autonomia de vontade e maturidade estão ainda a ser construídas. Não podem, pois, ser avaliados os aspectos da escrita num adolescente da mesma forma como são avaliados nos adultos! Enquanto, num adulto, a utilização da escrita como método de diagnóstico para a orientação profissional é bastante segura, para um adolescente levanta uma série de problemas: estes evoluem muito rapidamente e não é possível determinar exactamente que tendências se virão a manifestar em poucos meses, quanto mais em vários anos. Mas, precisamente pela grande variabilidade e instabilidade deste período da vida, a Psicologia da Escrita assume um papel ainda mais importante nesta fase do que no caso dos adultos: são adolescentes e jovens os que mais precisam de orientação e também os que estão mais abertos e dúcteis a qualquer tipo de ajuda psicológica. Por outro lado, a adolescência é talvez a fase da vida em que mais se escreve. A escrita assume aqui também um papel importante na detecção de sinais de alerta, imediatamente após o seu aparecimento, permitindo uma intervenção atempada.

 

Outras limitações

Pelas mesmas razões apontadas em relação às crianças, não pode ser avaliada da mesma forma a escrita das pessoas com muito poucas ou nenhumas habilitações escolares, que nunca aprenderam a escrever, que apenas o fizeram em parte ou que, após terem aprendido a escrever, nunca mais utilizaram a escrita. Estas pessoas não dominam inteiramente o acto da escrita e esta acabará por ser muito menos espontânea. Sendo menos espontânea a escrita, menos dados poderão ser descortinados sobre a personalidade da pessoa que escreve. É verdade que várias classes socioprofissionais escrevem cada vez menos. Porém, por enquanto, a utilização da escrita na infância e adolescência ainda é generalizada em Portugal. E terá tendência a continuar a sê-lo, com uma cada vez maior escolarização e habilitações exigidas. Ora, tal como nadar ou andar de bicicleta, a escrita não se desaprende, embora possa haver alguma desadaptação ou entorpecimento motriz quando se escreve muito raramente e apenas amostras muito pequenas.

 

As amostras com propósito de estudo

Um estudo deve ser preferencialmente feito com base em escritos que não foram propositadamente realizados para análise, onde não tenha existido qualquer tipo de constrangimento. No entanto, muitas vezes tal não é possível. Nos casos em que a pessoa escreve propositadamente para um estudo, este poderá ser igualmente realizado, não aumentando muito a margem de erro. Porém, certas pessoas podem impressionar-se ou constranger-se em demasia, e quebrar ou agitar o gesto gráfico. A não habituação a um determinado suporte gráfico pode também inibir a pessoa e induzir em alguns erros de análise, que, apesar de serem mínimos, não são de menosprezar quando o objectivo é a maior segurança possível no diagnóstico. Se o especialista não estiver avisado sobre o contexto em que foi produzida a amostra, poderá julgar esse constrangimento como um traço normal na personalidade.

Temos, pois, de ter em conta os seguintes factores:

 

            A escolha da caneta e da dimensão e formato do papel. No caso de uma amostra produzida num local pré-determinado, a pessoa a estudar deverá poder optar pelo tipo de folha ou caneta com que quer escrever. Certamente escolherá o tipo e tamanho de folha a que está habituada, bem como um determinado tipo de caneta. Uma pessoa que possua uma escrita muito pequena e que escreva sempre com esferográfica de ponta fina, se lhe for dada uma caneta de feltro para escrever, das duas uma, ou irá aumentar o tamanho geral do grafismo para que as letras fiquem bem visíveis ou então irá escrever com o mesmo tamanho, enchendo os ovais de tinta. De um modo ou de outro, um psicólogo da escrita não avisado poderá tirar conclusões erradas sobre o tamanho da escrita ou sobre a sua nitidez. O mesmo se aplica no caso de uma pessoa com uma escrita de grande dimensão, a quem é fornecida uma pequena folha para escrever.

            Bilhetes postais. Os postais são frequentemente um espaço muito pequeno para a quantidade de coisas que pretendemos contar sobre umas férias, por exemplo. As amostras de bilhetes postais, assim como listas de compras, e outras amostras do género, tendem a ser mais pequenas e desordenadas do que as normais amostras. Sempre que possível devem ser preteridas.

Envelopes. Ao contrário do que era prática corrente por parte de alguns autores clássicos franceses, as amostras escritas em envelopes devem também ser preteridas. Para os autores clássicos, os envelopes poderiam ter alguma utilidade como complemento porque, como se sabe, a normalização postal em França é mais rígida que em Portugal. Além do mais, em França, a frente do envelope só leva o endereço do destinatário. No caso português a situação é diferente. Sabemos, por exemplo, que muitas pessoas escrevem excepcionalmente em maiúsculas os endereços nos envelopes, para se assegurarem que os correios encaminharão a missiva correctamente. O estudo da escrita nos envelopes apenas terá algum interesse se for dirigido à forma como o endereço se situa espacialmente no envelope, mas sempre como complemento a outras amostras.

            Qualidade e tipo da caneta. Deve ter-se em conta o tipo de caneta com que foi feito o grafismo, pois cada tipo origina traços de espessura e nuances diferentes. Isto é tanto mais importante caso só existam amostras em fotocópia, onde dificilmente pode ser determinado com exactidão o tipo de caneta que originou determinado traçado (vendo-se apenas uma mancha indistinta de toner). Aliás, um grafólogo competente deve conhecer todos os tipos de canetas e quais as suas particularidades. Actualmente, a maioria dos portugueses escreve com esferográficas, à excepção de alguns grupos socioprofissionais bem definidos, como os designers, que utilizam sobretudo as canetas de tinta permanente.

Se pensarmos que, com uma caneta de tinta permanente, uma mínima paragem no gesto de escrever pode deixar também um minúsculo borrão, podemos desde logo perceber que situações opostas podem causar o mesmo efeito aparente. Daí que seja necessário, ante uma amostra, saber desde logo que tipo de caneta a produziu e se esta estaria a funcionar bem ou não. As antigas canetas de ponta, que largavam mais ou menos tinta conforme a posição e o ângulo formados em relação à folha, forneciam muito mais informação ao especialista porque permitiam conhecer exactamente a posição da caneta em relação ao papel durante todo o manuscrito. No entanto, estas canetas, nas mãos de quem nunca com elas escreveu, produzem grande constrangimento e inibição, daí que nunca devam ser utilizadas nestas circunstâncias.

Cor da caneta. Parece provado estatisticamente que, no grupo de pessoas que tendem a escrever sempre com caneta preta, existe uma maior percentagem relativa de sujeitos depressivos do que no grupo de pessoas que tendem a escrever sempre com caneta azul. Este fenómeno assume maior significado na adolescência, por ser uma fase em que a experimentação de sensações gráficas é maior: escrever usualmente com esferográficas de cor roxa, verde, vermelha ou castanha é típico da adolescência. No entanto, salvo algumas excepções, qualquer pessoa muda a cor da caneta sem grandes constrangimentos, pelo que a cor da caneta é um factor a ter em conta, sim, mas de pouca importância relativa.

            As cartas de apresentação manuscritas. Muitas vezes, a grande tensão emocional a que um sujeito pode ser submetido quando escreve uma carta de apresentação para concorrer a um emprego, pode gerar algumas alterações na escrita. Um novo emprego poderá significar uma grande mudança de vida ou o limiar de todas as aspirações. É natural, nestes casos, que a pessoa se sinta ansiosa e mais nervosa. No entanto, se para um outro candidato com as mesmas aptidões e habilitações, esse novo emprego não lhe provoca qualquer tipo de ansiedade, acabará por apresentar um grafismo com menos sinais de perturbação. Em situações de desempate, poderá este último ser o escolhido, simplesmente porque o psicólogo da escrita julgará apenas aquilo que possui e conhece. Sendo assim, quanto maior for a delicadeza e a responsabilidade do estudo a efectuar, mais necessário se torna o uso de amostras escritas em estados anímicos normais, não efectuadas com o fim específico do estudo. Mesmo assim, o conhecimento de que os candidatos escreveram sobre situação de ansiedade pode também ser útil para avaliar a resposta dada pelos candidatos perante essa situação, em especial se os candidatos concorrem a um cargo altamente desgastante. Nestes casos, convém, no entanto, possuir também uma amostra de contraste de cada candidato, escrita em situação normal.

             Folhas pautadas. As folhas pautadas são um acessório gráfico que refreia possíveis tendências inconscientes a sair fora da linha. Obrigam a escrever com um espaço padronizado entre as linhas. Note-se que as folhas quadriculadas, por possuírem um espaço entre linhas mais pequeno do que as normais folhas pautadas obrigam a que o sujeito escreva com as linhas mais apertadas ou com um linha de intervalo. Em ambos os casos, a apreciação do espaço entre linhas sai falseada. As amostras realizadas em folhas sem pauta devem ser, sempre que possível, as preferidas para os estudos. Não sendo isso possível, deve ter-se em atenção as limitações que uma folha pautada causa em relação à medição do espaço entre as linhas e à própria direcção da linha.

Nesta amostra de uma professora, produzida sobre papel quadriculado, vê-se claramente como, deixando uma linha de intervalo (à esquerda), ou não (à direita), a avaliação do espaço torna-se bastante diferente.

 

 

 

 

 

 

 

            Folhas com margens. Pelas mesmas razões anteriormente apontadas, também as folhas com margens devem ser, sempre que possível, preteridas.

             As fotocópias. As fotocópias não permitem medir os aspectos mais importantes da pressão e do tipo de traço, sendo uma grande limitação para um estudo correcto. Contudo, em alguns casos – como em criminologia – as fotocópias podem ser o único material disponível. Nestes casos, o especialista deve fazer o melhor que sabe, alertando no seu parecer para as limitações sentidas.

            O tipo de suporte. Escrever directamente com a folha em cima de um suporte duro torna o traço mais fino e aparenta uma diminuição da pressão em relação ao mesmo traço feito numa folha apoiada num suporte mole (um caderno, por exemplo). Convém sempre saber em que local foi redigida a amostra. Neste caso, pode ter vantagem a recolha de amostras propositadas num local em que o psicólogo da escrita conheça o tipo de suporte utilizado.

Em cima, o efeito de um traço de esferográfica feito numa folha sobre um suporte mole. Em baixo, o efeito de um traço da mesma esferográfica feito com a mesma pressão numa folha sobre um suporte duro.

 

 

 

 

            A assinatura e o destinatário da amostra. As amostras para estudo devem estar assinadas e devemos procurar saber para quem foi escrita a amostra, porque o destinatário influencia, por exemplo, o tipo de assinatura que colocamos. Uma assinatura sem contexto não serve de nada. Deve possuir sempre texto, caso contrário, é como estar a analisar a fotografia promocional de um filme sem nunca ter visto o filme. Se nessa fotografia aparece um polícia, podemos apenas dizer que um dos personagens do filme é polícia, mas não podemos logo concluir que o filme é um policial. Pode até ser um drama ou um filme cómico. Se conhecermos o filme, poderemos tirar conclusões sobre a razão que levou o produtor a escolher essa fotografia promocional e não outra. Por outro lado, o conhecimento prévio do destinatário da amostra permite também tirar algumas conclusões sobre eventuais perturbações existentes no grafismo. Certamente serão muito diferentes os estados de espírito de quem escreve para a amante do seu marido ou de quem escreve para um amigo.

            O modelo caligráfico de origem e/ou a época histórica da amostra. Deve um psicólogo da escrita saber sempre onde aprendeu a escrever a pessoa cuja escrita será estudada, porque os modelos caligráficos mudam de país para país. Um certo tipo de "g" pode ser uma extravagância, de acordo com o modelo caligráfico português, e ser algo perfeitamente normal num outro país, onde esse tipo de "g" faz parte do modelo caligráfico ensinado às crianças. A utilização de um determinado tipo de "g" pode ser tanto um escrupuloso seguimento desse modelo como uma subversão total do modelo. Sem conhecermos o dito modelo não podemos concluir nada e perde-se muita informação. Por isso, é mais difícil para um psicólogo da escrita português estudar amostras de pessoas que aprenderam a escrever fora de Portugal, especialmente em países com modelos caligráficos totalmente diferentes dos nossos. Daí também o facto da maior parte dos livros sobre o estudo da escrita à venda em Portugal, mesmo os poucos com algum interesse, não se revestirem de grande utilidade para os portugueses: não se baseiam nos nossos modelos caligráficos.

            Os modelos caligráficos também variam conforme a época. Por essa razão, ao pretendermos estudar a escrita de uma pessoa que viveu no século XVIII devemos ambientarmo-nos ao modelo que era ensinado na altura e conhecermos bem essa época. Torna-se, pois, complicado fazer diagnóstico de personalidade através da escrita de pessoas que aprenderam a escrever numa época muito recuada, até porque existiria certamente menor hábito de escrever.

As maiúsculas. A escrita exclusivamente em maiúsculas tipográficas é, normalmente, menos rica em informação, porque o modelo de maiúsculas não possui as três zonas da escrita que possui o modelo caligráfico. Por outro lado, é um modelo desligado e não cursivo, que não permite tanta espontaneidade. Aliás, muitos escritos anónimos são em maiúsculas porque o falsificador tem consciência que o produto final não se assemelha à sua letra cursiva, embora, na prática, possua todos os tiques e tendências da sua caligrafia, pelo que pode ser desmascarado. Se uma pessoa escreveu as amostras para estudo apenas com maiúsculas tipográficas para se fazer entender, então podemos pedir-lhe que escreva em minúsculas. Porém, se essa pessoa escreve sempre com maiúsculas em todas as circunstâncias e é um adulto, tornar-se-á mais difícil que essa pessoa venha a escrever propositadamente com minúsculas a nosso pedido. É relativamente fácil conseguir que um jovem com a escrita toda em maiúsculas escreva um texto em minúsculas, pois é nessa idade que normalmente este modelo de maiúsculas tipográficas é assumido e ainda não está excessivamente automatizado. As razões que estão por detrás da escolha das maiúsculas tipográficas por parte de algumas pessoas serão objecto de um futuro trabalho nosso, já que estão muito ligadas à problemática da adolescência.

            A mão escrevente. Deve um psicólogo da escrita saber sempre se a pessoa escreve com a mão esquerda ou com a direita. Em situações normais, este factor não afecta determinantemente a escrita, uma vez que esta é um acto cerebral, independente do braço que escreve. No entanto, devem ser tidos em atenção os seguintes factores:

1.    Alguns autores defendem que os esquerdinos, porque neles a predominância de hemisférios cerebrais é inversa aos dextros, possuem a priori características de personalidade próprias, em relação a estes últimos. Neste momento, ainda não foi descrita, de forma inequívoca, uma escrita típica de esquerdinos. Não existe, aliás, suficiente investigação sobre este assunto. No entanto, por razões fisiológicas, certo tipo de formas caligráficas ocidentais são, em geral, mais escolhidas por esquerdinos e o simples facto de conhecermos esta tendência permite-nos retirar o valor à escolha dessas formas na escrita de esquerdinos. Por exemplo, o gesto de abdução, executado pelo dextro ao seguir uma linha da esquerda para a direita, faz com que, no final das linhas, o sujeito que escreve tenha de produzir um determinado esforço para manter a horizontalidade e não "fugir" para baixo. As crianças que começaram a aprender a escrever há pouco tempo não conseguem ainda controlar essa tendência. Daí que se pedirmos a uma criança dextra de seis anos para escrever um pequeno texto numa folha sem linhas, estas linhas terão tendência a cair junto à margem direita. Ora, no esquerdino pode suceder precisamente o inverso, uma vez que o gesto que progride na folha vem de fora para dentro, significando, pois, que o esquerdino terá de fazer um certo esforço para que a linha não "fuja" para cima, à medida que se aproxima da margem direita da folha. Estas pequenas observações permitem que estes sinais sejam destituídos de valor quando percebemos porque surgem na escrita, evitando-se assim muitas conclusões erradas. No caso de estudos referentes a crianças e adolescentes, a folha pautada com um escrito cuidado é útil para contrastar com um escrito mais espontâneo feito numa folha não pautada.

Um esquerdino precisa de fazer mais esforço para evitar que a linha suba e para progredir até ao fim da folha (já que cada vez o gesto se afasta mais do campo de acção do braço esquerdo). Um dextro precisa de fazer mais esforço para evitar que a linha desça e para não ultrapassar a margem direita (já que cada vez o gesto entra mais no campo de acção do braço direito).

 

2.    Os esquerdinos que, na infância, foram obrigados a escrever com a mão direita, podem ter criado uma resistência ao acto de escrever. Este aspecto é muito importante na infância e pré-adolescência, onde está provado que os esquerdinos contrariados vêem a sofrem muito mais vezes de disgrafia do que os normais dextros.

3.    No caso dos esquerdinos contrariados, convém sempre saber com que mão foi escrita a amostra a estudar. Muitas vezes, existem amostras escritas com a mão direita, sendo esta a mão com que o esquerdino escreve pior (o esquerdino pode escrever com a direita, mesmo que com resultados piores, para adaptar-se ao padrão social). Nestes casos, a mão esquerda – a mais espontânea, poderá reflectir melhor os gestos que nos permitirão tirar conclusões sobre a personalidade de quem escreve.

4.    No caso dos ambidextros, também é provável que exista uma mão que escreva mais à vontade do que a outra. Esta deve ser sempre a escolhida para as amostras. No caso de amostras já realizadas por ambidextros, devemos sempre saber se estas foram escritas, ou não, com a "melhor mão". Normalmente, a mão direita é a melhor mão para os ambidextros, uma vez que estes têm maior facilidade em adoptarem esta mão para escrever, logo em criança. No entanto, existem muitos casos em que a lateralização ambivalente na criança pode gerar problemas e estes virem a persistir durante algum tempo, se não forem acompanhados por um terapeuta.

 

            Contexto em que foi produzida a amostra. Devemos saber sempre em que condições foram escritas as amostras a analisar. Nomeadamente:

1.    As condições climatéricas extremas. Um dia de muito frio geralmente contrai a escrita. Um dia de muito calor pode originar o fenómeno oposto. Se num dia de frio o corpo tem tendência a retrair-se e a produzir o menor movimento possível (quando em situação de descanso), a escrita tem tendência a ficar mais pequena e tremida. Num dia de muito calor, o corpo tem tendência a produzir gestos mais amplos e a escrita pode ter a tendência a ficar maior. Nos dois casos extremos, os músculos e articulações do braço podem não responder convenientemente aos estímulos cerebrais, alterando as formas que o cérebro planeou para o papel.

2.    O álcool, as drogas, alguns fármacos, algumas situações pós-operatórias traumáticas. Se uma determinada amostra foi escrita por uma pessoa sob a influência excessiva do álcool, também a escrita sairá ligeiramente maior e mais descontrolada do que o habitual. O álcool é um desinibidor mas também faz perder o controlo ideal das funções vitais. Por isso o álcool é um perigo nos condutores e também por isso uma grande parte dos ébrios não param de rir, de falar ou chorar, conforme os casos. A influência de drogas também pode afectar a escrita, conforme o tipo de droga e a fase de influência em que a amostra foi produzida. Alguns fármacos – nomeadamente, anti-depressivos – podem também alterar ligeiramente a escrita, dependo da influência que estes possam ter sobre o cérebro ou sobre a motricidade. O mesmo se aplica a algumas situações pós-operatórias traumáticas em que o organismo ainda não responde convenientemente.

3.    As situações emocionais limite. Imediatamente após ter ganho o euromilhões, uma pessoa pode ter tendência a escrever com um gesto de maior dimensão, mais descontrolado, mais instável e aberto. Se uma pessoa está a escrever com um revólver apontado à cabeça ou se está a ser sujeita a um qualquer tipo de tortura ou uma outra situação limite, a escrita também tem tendência a alterar-se, tornando-se mais instável / quebrada, conforme os casos.

 

            Dados adicionais importantes sobre o sujeito a estudar. Devemos ter em conta qualquer outro dado especial sobre a pessoa (se possui alguma doença grave, algum problema de motricidade ou outros problemas relevantes de foro médico). Normalmente, estas situações graves, em especial as relacionadas com uma deficiente motricidade, podem reflectir-se na escrita. Se conhecermos estes problemas, podemos retirar valor a uma série de aspectos mais estranhos que possam surgir na escrita destas pessoas. Caso contrário, podemos estar a cometer erros. Este pressuposto permite compreender a razão da escrita servir como forma complementar de diagnóstico em certas patologias médicas, como foi já referido anteriormente.

 

A quantidade de amostra mínima

            Devemos estar sempre a par de todas as circunstâncias limitadoras atrás enunciadas. Caso só tenhamos uma amostra e saibamos que esta foi escrita debaixo de alguma destas circunstâncias, saberemos ter isso em consideração. Obviamente que a margem de erro aumenta ligeiramente à medida que mais circunstâncias limitadoras interferem na escrita. Se não conhecermos todas estas circunstâncias, poderemos tomar por normal o que é apenas circunstancial e cair num julgamento errado. Quanto mais textos, quanto mais páginas existirem, menor é o risco de erro num estudo deste género. Daí que seja sempre conveniente ter mais do que uma amostra. Quantas mais amostras existirem, melhor. De preferência, amostras escritas em diferentes épocas e diferentes situações emocionais, especialmente se estas situações emocionais nos forem relatadas pela própria pessoa. No caso de adolescentes, é conveniente contrastar as amostras recentes com outras amostras anteriores, em especial da época pubertária (época de grandes transformações na escrita). No caso de adultos, é também conveniente possuir amostras complementares de idades mais recuadas, em especial das várias etapas da adolescência, quando se trata de fazer perfis aprofundados de personalidade.

            Nos casos em que o material é escasso, deve ter-se em conta que a amostra mínima para que possa ser feito algum tipo de estudo deve preencher, pelo menos, uma folha A4. A razão é simples: é necessário uma amostra suficientemente ampla para que possamos ter alguma segurança quanto à espontaneidade do acto escrevente. No caso de existir suspeita de que o sujeito escrevente procurou desenhar uma letra diferente da sua, deve exigir-se uma amostra maior, para que todas as maneiras de perceber o que foi forjado possam ser destrinçadas. Por outro lado, a amostra deve ser suficientemente grande para que se possa perceber a disposição na página e para que possa conter várias vezes todas as letras do alfabeto, de modo a serem comparadas as soluções apresentadas em cada letra, conforme o contexto do gesto que é exigido perante as letras anterior e seguinte. Obviamente, uma pequena anotação numa agenda ou uma só frase não servem para um relatório sobre a personalidade, uma vez que a margem de erro aumentaria enormemente. Porém, na área criminal, somos por vezes confrontados com pedidos de estudo sobre uma só palavra ou assinatura – para determinar, por exemplo, se foi escrita por determinada pessoa. Nestes casos, é necessário possuir bastantes amostras de contraste.

            Também não devem ser utilizadas amostras produzidas como apontamentos de aulas ou notas de reuniões, a não ser como amostras de contraste, para avaliar a atitude do sujeito perante situações em que o acto de escrever é certamente mais descuidado. O conteúdo escrito de uns apontamentos é uma reprodução do que ouvimos ou cópia do que lemos. Alguns aspectos do estudo podem ficar limitados, especialmente em relação a possíveis conteúdos emocionais de certas palavras. Daí que seja muito útil fazer relatórios baseados em cartas pessoais, ou páginas de diários, onde a pessoa escreve o que sente e pensa e, ao mesmo tempo, não está demasiado preocupada com a apresentação, como nas cartas oficiais. Em todo o caso, o contraste entre uma carta pessoal e uma folha de apontamentos e/ou uma carta oficial também é sempre muito útil (especialmente em relação à assinatura) para perceber a atitude do sujeito perante as diferentes situações.

            Obviamente, o conhecimento de alguns destes factores é mais importante para determinado tipo de estudos do que para outros. Por exemplo, para realizar um bom perfil de personalidade é essencial saber o sexo e a idade mas não é muito importante conhecer o tipo de folha ou de caneta utilizado. Ao contrário, para uma peritagem, o sexo e a idade poderão ser dados menos importantes do que o tipo da caneta ou da folha.

            É importante não esquecer que a escrita não permite conhecer todo o ser humano, e que qualquer estudo deste género possui sempre uma margem de erro, variável conforme as circunstâncias. Para que a margem de erro seja mínima, basta ter em atenção todas as limitações enunciadas até aqui, o que nem sempre é possível. Por exemplo, na área da selecção de pessoal, é muito comum que um psicólogo da escrita trabalhe sobre amostras em quantidade insuficiente e sem poder ter conhecimento de algumas das circunstâncias em que foram escritas, o que forçosamente origina uma margem de erro mais elevada nos respectivos pareceres.

            Por fim, existem outras limitações de carácter ético que convém reter quando são feitos estudos de Psicologia da Escrita, mesmo que não vigore oficialmente em Portugal qualquer código deontológico aplicado à profissão:

1.    Nunca afirmar o que não se sabe.

2.    Nunca elaborar estudos sobre terceiros se houver alguma suspeita de que estes servirão para os prejudicar ou se os manuscritos apresentados não pertencerem à pessoa que requer o estudo.

3.    Não permitir o acesso de intermediários aos relatórios elaborados. A privacidade das pessoas é um valor fundamental.

4.    Não menosprezar a utilização de outras técnicas projectivas. Estas servem para contrastar os resultados. Na busca do conhecimento humano todas as técnicas são sempre insuficientes. Daí que a quantidade de métodos utilizados aumente as hipóteses de uma melhor aproximação à realidade.

5.    O papel de um psicólogo da escrita é ajudar as pessoas. Os perfis a apresentar devem – mesmo nos traços de personalidade socialmente considerados menos recomendáveis – conter o seu lado positivo, bem como pistas para um eventual auto-aperfeiçoamento.

 

 

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