Towards a Handwriting Psychology

 

 

 

esboço histórico e situação actual da Psicologia da Escrita

 

 

 

Origens da escrita

            A "invenção" da escrita foi um dos marcos mais importantes da história da civilização. É claro que não é possível apontar datas exactas para o seu aparecimento, uma vez que a escrita descende directamente do desenho e, como tal, terá evoluído por fases até à escrita que hoje existe. Podemos mesmo estabelecer uma ligação entre as pré-históricas gravuras rupestres e a nossa escrita actual, uma vez que a escrita europeia, bem como todas as outras formas de escrita existentes à face da Terra, são simplificações mais ou menos acentuadas desse tipo de expressão pré-histórica. É claro que a arte rupestre tinha sobretudo um significado mágico e ritual, significado esse que actualmente não existe na escrita, pelo menos não de um modo explícito ou consciente. No entanto, sabemos que as formas mais primitivas de escrita foram, durante séculos, quase exclusivas de sumo-sacerdotes ou feiticeiros tribais. Estas escritas estavam impregnadas de símbolos primordiais ligados às religiões primitivas.

Como se sabe, as escritas actuais evoluíram sempre no sentido de uma maior simplificação. Deu-se um grande passo desde as primitivas escritas pictográficas (que nem sequer poderão ser consideradas formas de escrita, como hoje a concebemos) até à escrita cuneiforme suméria. Esta última forma respondia sobretudo a necessidades contabilísticas e administrativas de uma civilização florescente – a primeira civilização urbana – com um comércio preponderante. A escrita exigia-se simples e padronizada, para que pudesse ser escrita (gravada no barro) e lida pelos escribas (funcionários que, assim, adquiriram um estatuto social elevado). Os fenícios, apontados como os criadores remotos da nossa escrita, também inventaram um alfabeto simplificado para facilitar as suas constantes actividades comerciais.

Nas escritas em que a evolução para a simplificação foi muito lenta, como é o caso da escrita chinesa, ainda é possível associar a forma de alguns caracteres aos símbolos que lhes deram origem. Na China, a escrita ainda é uma arte com algum significado religioso, ao ponto de a sua estética e o seu aperfeiçoamento estarem intimamente ligados à própria filosofia oriental.

 

As primeiras abordagens psicológicas à escrita

            O historiador romano Suetónio, na sua obra Vida dos Doze Césares, descreve alguns aspectos da escrita de Octávio César Augusto que considerava fora do comum, com o objectivo de tentar traçar o seu perfil de personalidade. Porém, apesar de na Antiguidade Clássica alguns outros autores terem colocado a hipótese de um possível conhecimento do ser humano através da forma como escreve, não era nessa época possível que tal hipótese viesse a ser materializada. A escrita era ainda privilégio de uma escassíssima minoria e apenas se utilizava para determinado tipo de documentos.

Na Idade Média, a escrita europeia era ainda quase só utilizada por monges, para a cópia de livros sagrados e para a produção de documentos de carácter administrativo e legal. Por este último motivo, a escrita começou também a ser cada vez mais utilizada por chanceleres e uma minoria de altos funcionários de corte. Nos finais da Idade Média, a escrita ia perdendo progressivamente o seu carácter religioso, embora, como se sabe, a mentalidade europeia da época estava de tal forma impregnada de religiosidade cristã que mesmo os documentos oficiais invocavam Cristo no seu protocolo formal. Com o florescimento das primeiras universidades europeias, a escrita passou a ser também utilizada por alguns eruditos. No entanto, fazer dela um instrumento de conhecimento do homem ainda não passava de uma mera hipótese teórica: a escrita continuava a ser privilégio de diminutas minorias.

            Com o Renascimento e a Contra-Reforma, a escrita sofreu um grande incremento na sua utilização. Não é também alheio o facto de, nesta época, ter sido vulgarizada a imprensa. Seria de esperar que surgissem contribuições mais concretas sobre a escrita como forma de conhecimento do homem. Conhecem-se breves referências ao espanhol Juan Huarte San Juan (em 1572) e, em 1610, ao napolitano Próspero Aldorísio. Este último andava interessado em dar um nome à nova disciplina, tendo escolhido Idengrafia. No entanto, aquele que é considerado o primeiro livro dedicado exclusivamente ao tema do conhecimento da personalidade através da escrita é de Camillo Baldi (1547-1634), que foi professor de Filosofia na Universidade de Bolonha. Em 1622, Camillo Baldi publicou o seu Tratatto come da una lettera missiva si conoscono la natura e le qualitá dello scrivente. Esta obra terá tido algum eco nos séculos seguintes.

Durante os séculos XVII e XVIII, vários outros autores escreveram ou publicaram sobre o mesmo tema. O anatomista napolitano Marco Aurélio Severino (1580-1656) abordou-o numa obra que não chegaria a ser publicada, devido à morte prematura do autor. O filósofo Leibniz (1646-1716) defendeu também o princípio segundo o qual a escrita espontânea reflecte o temperamento natural de cada ser humano. Incentivado por Goethe, também Joahnn Kasper Lavater (1741-1801) dedicou parte do seu estudo à escrita. Na sua obra Phisiognomische Fragmente, Lavater incluiu um pequeno capítulo sobre este assunto, afirmando que a escrita é o movimento mais variado e complexo produzido pelo homem. A obra de Lavater influenciou muitos outros investigadores, entre os quais Edouard Hocquart (1787-1870) – autor da obra L'art de juger du caractère des gens d'aprés leur écriture, publicada em 1812 – e o abade Jean-Hyppolite Michon (1806-1881).

           

O surgimento dos primeiros tratados de interpretação psicológica da escrita

            Subprodutos do Iluminismo e, em especial, da Revolução Francesa, as reformas liberais levadas a cabo na primeira metade do século XIX um pouco por toda a Europa generalizaram as escolas das primeiras letras. Cada vez mais pessoas podiam aprender a ler e a escrever, embora, na prática, só as classes sociais com algumas posses o pudessem fazer. Torna-se cada vez maior a utilização da escrita na vida diária e é nesta época que se dá uma verdadeira "explosão" na edição de livros e jornais: uma significativa parte da sociedade era já alfabetizada e a comunicação escrita podia começar a dirigir-se às massas. Seria de prever que o estudo sistemático da escrita tivesse aqui o seu verdadeiro arranque.

Na França de meados do século XIX, várias eram já as pessoas que se dedicavam ao estudo do tema, entre as quais alguns eclesiásticos. Por volta de 1830, existiria já uma escola para estudo e interpretação da escrita, dirigida pelo abade Flandrin (1809-1864). Foi também um abade – o já referido Jean-Hyppolite Michon (discípulo de Flandrin) – quem terá atribuído à emergente disciplina o nome graphologie, tendo publicado algumas obras exaustivas sobre o tema, nos anos 70 do século XIX. A sua principal obra foi publicada em 1875 e intitulava-se Systéme de graphologie. Michon foi também o fundador da actual Societé Française de Graphologie e da revista La graphologie que, apesar de algumas interrupções, ainda hoje se publica, sendo a revista da especialidade mais antiga e mais lida no mundo.

Michon pode ser considerado um percursor da actual Psicologia da Escrita, por ter sido o primeiro a publicar com sucesso um método tido como completo para o estudo da escrita, método esse baseado nos seus trinta anos de investigação. Contudo, o método de Michon hoje em dia não é sequer ensinado, tendo-se há muito concluído que era deficiente e rudimentar. Michon, no entanto, não poderia ter feito melhor uma vez que, em 1875, a própria Psicologia não possuía ainda um corpus científico sólido. As teorias de Michon baseavam-se em interpretações mais ou menos fixas de cada aspecto gráfico da caligrafia, facto que não pressupunha, desde logo, a interacção de caracteres na personalidade humana, resultando obviamente em graves erros.

            Jules Crépieux-Jamin (1859-1940), aluno e crítico de Michon, foi o continuador deste último, tendo publicado em 1888 a importante obra L'écriture et le caractère. Esta obra, que conheceu inúmeras edições posteriores, lançou as bases para um método mais credível de estudo da escrita do ponto de vista psicológico, tendo dado origem à chamada escola francesa. No seu posterior livro, ABC de la graphologie, editado em 1929, Crépieux-Jamin reúne cinquenta anos de investigação. Porém, nesta obra, Crépieux-Jamin poderia ter avançado muito mais – servindo-se de alguns dos progressos que a Psicologia em geral tinha já alcançado, nomeadamente a terminologia e as concepções então muito em voga dentro da Psicanálise.

Crépieux-Jamin não fez o suficiente para que o estudo da personalidade através da escrita pudesse vir a ganhar o estatuto de disciplina auxiliar da Psicologia. O psicólogo Ludwig Klages (1872-1956) foi, neste aspecto, um pouco mais feliz. Klages aplicou ao estudo da personalidade as suas concepções vitalistas (influenciadas pela filosofia de Bergson) e procurou fazer a ponte com a Psicanálise. Contudo, o seu método era bastante complexo e foi frequentemente criticado como sendo muito subjectivo e de difícil ensino. Ainda assim, Ludwig Klages foi a principal figura de uma nova corrente de investigação e lançou mesmo as bases da chamada escola alemã, através da sua obra fundamental Handschrift und Charakter, publicada em 1917.

            Em Itália nasceu também uma outra importante escola, iniciada pelo padre Girolamo Moretti (1879-1963), homem de rara cultura e espírito científico. O método que propôs é sobretudo muito didáctico e de uma grande sistematização. Este método, apesar de ser superior ao de Klages e ao de Crépieux-Jamin, enfermou do mesmo problema dos métodos anteriores: não utilizou minimamente as abordagens da Psicologia moderna.

  Girolamo Moretti

 

 

 

 

De método de conhecimento do homem a disciplina auxiliar da Psicologia

            Em meados do século XX, apesar de ser já uma técnica fiável, o estudo da personalidade através da caligrafia continuava a ser feito de forma basicamente empírica. Não existia sobretudo uma investigação concreta e em larga escala sobre a veracidade dos diagnósticos. Para além do mais, o estudo da caligrafia humana entendido como uma arte, sem grandes exigências profissionais ou éticas, continuou a ser a via preferida pelos seus entusiastas, dando azo a que também muitos oportunistas e charlatães espalhassem por toda a parte os seus diagnósticos errados e irresponsáveis. Este facto fez com que, a prazo e ignorando a evolução geral da disciplina, a opinião pública visse o estudo da personalidade através da escrita como um mero jogo de salão.

            Nas primeiras décadas do século XX, a pouca investigação séria realizada sobre a caligrafia destinou-se sobretudo a determinar se era ou não verdadeiro o pressuposto de que a escrita reflectia a personalidade. Esta investigação foi maioritariamente realizada por investigadores ligados à Psicologia ou à Medicina, interessados em saber se estas disciplinas poderiam, no futuro, adoptar a escrita como um método auxiliar de diagnóstico. Podemos citar os trabalhos de Alfred Binet (1857-1911): o célebre criador dos testes de inteligência foi um dos que mais investigou nesta área, no início do século XX. Binet publicou várias obras sobre o tema, todas elas concluindo pela utilidade promissora da escrita como forma de diagnóstico de personalidade, embora Binet não deixasse de chamar a atenção para o muito caminho ainda a percorrer antes que a disciplina se pudesse vir a tornar científica. Na sua obra Les révélations de l'écriture d'aprés un controle scientifique, de 1906, Binet relata as experiências simples que foram por ele realizadas e que provaram a grande utilidade da escrita como forma de psicodiagnóstico.

Em finais do século XIX, um dos maiores vultos da Psicologia francesa e professor na Faculdade de Medicina de Paris – Charles Richet, afirmava o seguinte sobre o estudo da personalidade através da escrita: O princípio é certamente verdadeiro mas considero-me absolutamente incapaz de decidir de que forma e em que medida. Actualmente parece-me que existe mais de fantasia do que de ciência. Mas um dia virá, talvez, em que ela se torne científica. Richet tinha toda a razão. Não só o estudo da personalidade através da escrita era então maioritariamente exercido por incompetentes, como a própria linguagem técnica utilizada era totalmente alheia às concepções da moderna Psicologia, por culpa dos próprios estudiosos, alguns dos quais faziam bandeira desse facto, tendo em vista a conquista de um estatuto autónomo para a disciplina. Exemplo paradigmático deste facto foi a conferência dada por Klages na Sociedade Psicanalítica de Viena, em 25 de Outubro de 1911. A partir das actas dessa sessão, intitulada Da Psicologia da Escrita, podemos perceber a razão porque nunca a Psicanálise aproveitou as possibilidades que o estudo da escrita oferecia. Enquanto Klages dissertava sobre uma concepção de personalidade totalmente inovadora, derivada da sua experiência como psicólogo da escrita, Freud e seus pares rebatiam com concepções psicanalíticas que não encontravam paralelo no discurso de Klages. Foi impossível o estabelecimento de analogias entre os conceitos de cada sistema teórico, resultando num verdadeiro diálogo de surdos. No final, Freud ainda realçou a utilidade da Psicologia da Escrita para determinados problemas psiquiátricos e assumiu a sua importância em áreas que estavam para além do trabalho do psicanalista. As coisas ficariam por aqui. Freud acabaria por justificar o seu pouco interesse prático pelo estudo da escrita através de uma desculpa diplomática mas com sentido: para um psicanalista – como ele próprio se considerava – a Psicologia da Escrita não era grande ajuda, uma vez que a Psicanálise procurava, antes de mais, os factos.

            Nesta época, o estudo da personalidade através da escrita não podia ser considerado como ramo auxiliar da Psicologia, uma vez que ainda ignorava, ou fingia ignorar, as suas modernas concepções de personalidade. A aplicação à escrita da terminologia psicanalítica e da Psicologia moderna em geral foi apenas tentada no início da década de 1930. O psicólogo Max Pulver (1889-1952) deu o primeiro grande passo, não só com as numerosas palestras sobre Psicologia da Escrita que proferiu na Universidade de Zurique, mas sobretudo com a publicação, em 1931, da sua principal obra Simbolik der Handschrift. Nesta obra, Pulver aplicou à escrita as concepções do simbolismo espacial, ligadas à teoria do Inconsciente Colectivo de Jung. A obra de Pulver foi muito importante, não só para a Psicologia da Escrita, como também para a concepção de muitos dos testes gráficos ainda hoje utilizados pela Psicologia como método projectivo. Referenciemos o teste da árvore (Koch/Stora), o teste da família (Corman), o teste das estrelas e das ondas (Avé-Lallemant), os vários testes da figura humana, o teste da personagem à chuva, o teste da paisagem (A. Arthus), o teste de Wartegg e, mesmo que indirectamente, o próprio psicodiagnóstico de Rorschach, uma vez que este último baseia-se em apreciações relacionadas com estímulos gráficos.

Max Pulver

 

 

 

 

            Ania Teillard (†1978), psicanalista colaboradora de Jung, é também um nome importante na evolução da Psicologia da Escrita. Em 1948, Ania Teillard publica a sua principal obra L'Âme et l'ecriture. O subtítulo da obra é bastante mais esclarecedor: Traité de graphologie fondé sur la psychologie analytique. De facto, era disso que se tratava: a primeira obra destinada a provar que a Psicologia de Jung fundamentava a teorização já existente sobre o estudo da escrita de um ponto de vista psicológico. Mas o subtítulo desta obra reflecte também como a mesma teria de ter forçosamente um alcance limitado. De facto, a palavra "graphologie" – escolhida por Michon, no século anterior, para designar a disciplina – teimava em persistir, sobretudo junto da escola francesa. Tal atavismo prejudicava enormemente a credibilização da disciplina junto da comunidade científica.

            Depois das obras de Binet, foram os livros de M. Pulver e de A. Teillard aqueles que mais solidamente concluíram pela cientificidade dos princípios que os percursores tinham defendido, abrindo caminho para a inclusão progressiva do estudo da escrita nas correntes modernas da Psicologia. Se é verdade que a partir desta altura, a grafologia passava a poder ter uma linguagem comum à Psicologia e, consequentemente, a poder ser utilizada por psicólogos como complemento dos seus diagnósticos, na prática, porém, a situação manteve-se inalterável: só muito lentamente os estudiosos da caligrafia começaram a encarar a disciplina como uma técnica que necessitava de se basear em todas as novas abordagens da Psicologia para se manter actual e perseguir o objectivo de sair do estatuto de mera arte de conhecer os homens pela escrita para passar a ser uma disciplina científica autónoma.

Apenas na década de 1950, alguns investigadores ligados à actual Societé Française de Graphologie começaram a incluir no discurso da disciplina algumas perspectivas da Psicologia moderna, nomeadamente de Jung, Freud e Adler. Jung foi, desde o início, o preferido pela escola francesa, muito pela circunstância de ter sido o primeiro psicanalista de nomeada a ver introduzidas as suas teorias no estudo da personalidade através da escrita.

 

A Psicologia da Escrita como ciência experimental

            Com a adopção da linguagem e dos métodos da Psicologia actual, o estudo da personalidade através da escrita pôde aspirar a ser uma verdadeira Psicologia da Escrita. Na prática, porém, a situação modificou-se de forma lenta até aos dias de hoje. A antiquada designação "grafologia" tem-se mantido na maior parte das escolas, em especial porque a corrente clássica francesa resiste a abandonar um nome que tem largas tradições neste país, mesmo que a questão da designação prejudique a implantação da disciplina nas universidades francesas. Por outro lado, alguns autores actuais ainda sustentam que a grafologia deve continuar independente da Psicologia e a questão da designação, neste caso, nem sequer se põe.

            Apesar de tudo, a aplicação concreta (e em larga escala) das concepções actuais da Psicologia moderna ao estudo da personalidade através da escrita é um dado relativamente – dos últimos quarenta anos. Daí que o momento actual da disciplina seja bastante peculiar. Alguns investigadores mais idosos, reféns ainda de concepções de há meio século atrás, coexistem com investigadores mais novos que, felizmente têm impulsionado enormemente a disciplina. Actualmente, podemos distinguir como investigação de charneira os trabalhos da escola morettiana, ligada à Universidade de Urbino (Lamberto Torbidoni, Silvio Lena, Pacifico Cristofanelli, entre outros), alguns autores ligados à S.F.D.G. e ao G.G.C.F. (Jacqueline Peugeot, Arlette Lombard, Robert Olivaux, entre outros), entre vários outros exemplos de associações a nível europeu. Mencionemos também a Agrupación de Grafoanalistas Consultivos de España que, nos últimos anos, tem desenvolvido um trabalho de investigação e de divulgação muito interessante na região de Barcelona.

            Obviamente, esta breve exposição histórica sobre a disciplina teve de centrar-se nos autores mais importantes. Omitimos vários investigadores com publicações interessantes sobre Psicologia da Escrita, sobretudo autores alemães – não muito conhecidos nos países latinos, certamente por um problema de compreensão da língua.

 

A Psicologia da Escrita em Portugal

            É difícil apurar por que vias a escrita começou a ser estudada em Portugal. Contudo, sabemos que o advogado e perito calígrafo portuense Abílio Monteiro, pelo menos desde 1887, pretendia o reconhecimento do estudo da personalidade através da escrita como uma sciencia verdadeira e positiva, baseada em factos, embora estivesse consciente de que as teorias então existentes ainda necessitavam de muita investigação. Durante anos, Abílio Monteiro escreveu artigos em favor da utilização desta nova disciplina, quer nos Annaes do Notariado Portuguez (do qual era director), quer no Primeiro de Janeiro. Em 1897, Abílio Monteiro e o também advogado Araújo e Mello traduzem para português a obra de Virgílio Carli: Studdi sulla perizia di scrittura e calligrafia nei giudizi di falsitá, verificazione ecc., in materia penale e civile, publicada originalmente em 1888.

 

 

 

 

 

            Como se pode perceber, o estudo da escrita surgiu em Portugal muito ligado à peritagem de documentos. Conhecemos, no entanto, outro tipo de abordagens nesta época. Em 1903, Silva Telles publica no Século um artigo dando conta das experiências que Alfred Binet realizava nos laboratórios da Sorbonne, com vista a provar que o princípio do conhecimento da personalidade através da escrita era verdadeiro. Poucos anos depois é Cruz Andrade quem publica um longo artigo sobre o tema nos Serões.

 

 

 

 

Júlio de Matos (1856-1922), eminente psiquiatra português do início do século XX, também se debruçou sobre alguns aspectos da escrita aplicados à Psiquiatria. Porém, o primeiro livro que conhecemos de um autor português sobre o estudo da escrita foi publicado precisamente por Abílio Monteiro. Intitulava-se O carácter revelado - Sciencias e phantasias e foi publicado no Porto em 1908. O livro trata muitas disciplinas que se pretendiam científicas e estavam em voga na época. Ora, Abílio Monteiro faz a crítica a todas estas disciplinas, separando as que tinham fundamentos científicos das que não passavam de meras phantasias. O estudo da escrita com o propósito de conhecer a personalidade humana é a disciplina mais referida e elogiada no referido livro, colocando Abílio Monteiro grandes esperanças que esta disciplina viesse a tornar-se uma ciência.

 

 

            Na década de 1920, duas supostas grafólogas (Madame Brune e Madame Memphis) faziam análises de caligrafia para as revistas femininas ABC e Magazine Bertrand, respectivamente. Mas quem eram e que formação tinham estas duas senhoras? Porque usavam um pseudónimo? Seriam realmente portuguesas? Todas as indicações que temos nos levam a crer que, em Portugal, os primeiros "grafólogos" foram meros oportunistas ou charlatães. Assim se explica também porque, no nosso país, o interesse por esta matéria tenha ficado adormecido durante muitas décadas.

Anos após os contributos dados por Abílio Monteiro, alguns autores portugueses publicaram trabalhos sobre a escrita, como o Coronel Numa Pompílio da Silva, embora o pequeno livro que escreveu se afaste um pouco do tema, entrando mais na vertente da colecção de autógrafos. O Livro dos Reis e Presidentes da República, publicado em 1954 por Albino Lapa, refere a colaboração de um Instituto Grafológico Português, que não era uma organização de âmbito nacional, mas um mero gabinete. São referenciados como pertencentes a este "instituto" os Drs. A. M. da Fonseca e J. J. Ferreira. Nenhum destes autores revela propriamente uma investigação. Assim, é muito difícil saber quem em Portugal se dedicou seriamente ao estudo da escrita. Os poucos verdadeiros estudiosos de que tivemos conhecimento encontrámo-los numa faixa social minoritária, de estatuto sociocultural elevado. Pelos dados que temos, trataram-se apenas de estudiosos isolados entre si, ruminando as teorias que vinham especialmente de França, não trazendo grande mais-valia para a disciplina. É facto que, desde meados do século XX, alguns portugueses têm vindo a traduzir livros sobre o assunto, mas todos estes livros são de qualidade duvidosa ou mesmo muito má.

Pelo nosso conhecimento, foram muito poucos os portugueses que até hoje publicaram trabalhos de investigação na área do estudo da escrita. Podemos referenciar alguns nomes:

·        Mateus Neves, legista e professor universitário que, em 1954, publicou um artigo na Revue Internationale de Police Criminelle intitulado Ressemblances de famille des textes manuscrites.

·        O professor universitário Delfim Santos, que publicou Psicografia de um rei (Análise Grafocaracterológica), incluída no livro de A. Luiz Gomes: D. Carlos I e D. Luís Filipe. Palavras de evocação e apreço, publicado em 1958 pela Fundação da Casa de Bragança.

·        Francisco de Castro Carneiro, cuja Tese de Licenciatura se subordinou ao tema: A grafologia e o conhecimento do homem, tendo sido publicada pela Faculdade de Filosofia de Braga em 1966. Francisco de Castro Carneiro viria a ser docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

·        Manuel Lopes da Silva que, em 1986, apresentou em Espanha uma comunicação sobre Jack o estripador.

·        Leonor de Carvalho Daun e Lorena de Pombal, que foi detentora do diploma do G.G.C.F., reconhecido pelo governo francês como equivalente a uma licenciatura. Leonor Pombal teve uma projecção profissional muito maior em França, até porque a sua única obra referenciada (a monografia que lhe permitiu a entrada para o G.G.C.F) foi escrita em francês: Poésie et graphologie. Étude sur le graphisme de poètes portuguais modernes et contemporains, de 1971.

 

De todos estes nomes, Leonor Pombal destaca-se claramente, até porque chegou a ministrar aulas sobre o estudo da escrita, destinadas a uma audiência muito restrita, em grande parte pertencente à elite social e intelectual lisboeta da década de 1970. Foi sobretudo através de Leonor Pombal que se formou em Lisboa um pequeno grupo de interessados sobre o tema. Alguns passaram a dedicar-se de forma quase profissional ao estudo da escrita, o que não significa que todos o tivessem feito da forma mais recomendável, por vezes contribuindo para desacreditar a disciplina.

            Em meados da década de 1990, o estudo da escrita em Portugal quase se limitava a um hobbie de elite para alguns intelectuais de uma geração mais velha, residentes sobretudo nos arredores de Lisboa. Ainda não tinha nascido em Portugal uma verdadeira Psicologia da Escrita, sendo notória a ausência de uma geração de investigadores jovens com formação universitária, que procurassem no estudo da escrita uma ferramenta psicológica destinada a exercer uma actividade profissional especializada e séria. Portugal era então um dos países da Europa ocidental em que o estudo da escrita numa perspectiva psicológica estava menos desenvolvido, havendo mais de quarenta anos de atraso em relação aos países de charneira.

            No sentido de alterar este panorama desolador, lançámos um curso de introdução à grafologia o qual, pela primeira vez em Portugal, realizou-se num estabelecimento de ensino universitário, em Março de 1994. Esta experiência insipiente provou que existia um grande interesse na matéria, sobretudo por parte dos estudantes de Psicologia. Nesse sentido, aprofundámos a investigação que já realizávamos desde 1990 e fizemos um grande esforço para melhorar o programa do curso, eliminando definitivamente a já ultrapassada designação grafologia, a qual se prestava a algumas confusões.

Até 2009 tinham decorrido já dezanove edições do Curso de Introdução à Psicologia da Escrita, sempre realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Também decorreu, em 1996, uma edição do mesmo curso na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e, mais recentemente, no Instituto Politécnico de Tomar e no ISLA de Leiria. Já frequentaram este curso bem mais de 800 pessoas, na sua maioria estudantes de Psicologia e de ciências afins, sem contar com as várias dezenas de pessoas que frequentaram os nossos seminários sobre Psicologia da Escrita aplicada à infância e à juventude, especialmente no âmbito da formação contínua de professores.

 

  Devido ao interesse que a Psicologia da Escrita tem vindo a suscitar, foram publicados cinco números de um boletim com artigos de investigação – Grafismo. Foi também redigido o manual Introdução à Psicologia da Escrita, que resume as matérias leccionadas no Curso de Introdução à Psicologia da Escrita e tem por objectivo divulgar de forma séria a Psicologia da Escrita aplicada ao contexto sociocultural português. A existência deste manual, agora numa terceira edição actualizada, tem também contrariado a tendência desinformadora de alguns livros de qualidade duvidosa que têm sido recentemente traduzidos para português.

 

Em suma, os cursos de Introdução à Psicologia da Escrita realizados na Faculdade de Letras do Porto desde 1994 vieram alterar bastante o panorama do estudo da escrita em Portugal. Mesmo que estejamos ainda no início e mesmo que a publicação do boletim Grafismo tivesse de ser suspensa por falta de autores a escrever em português sobre o tema, a verdade é que nunca como hoje a Psicologia da Escrita foi tão requisitada em Portugal, a vários níveis.

            Até mesmo em Lisboa, onde estas matérias teimavam em continuar dependentes de concepções já ultrapassadas, foram levadas a cabo algumas novas actividades nos últimos anos, como a constituição de uma pequena associação, cujas principais subscritoras e fundadoras foram Albertine Santos, Isabel Pinto Basto e Marília Pimentel Teixeira. Tratava-se de um núcleo destinado a promover o modelo de ensino à distância da S.F.D.G., de modo a preparar portugueses para o exame internacional anual desta organização, que decorre em Paris.

 

Página inicial

© Francisco Queiroz, 2004

Última actualização: 03/24/09