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esboço histórico e situação actual da Psicologia
da Escrita
Origens da escrita A
"invenção" da escrita foi um dos marcos mais importantes da história
da civilização. É claro que não é possível apontar datas exactas para o
seu aparecimento, uma vez que a escrita descende directamente do desenho e, como
tal, terá evoluído por fases até à escrita que hoje existe. Podemos mesmo
estabelecer uma ligação entre as pré-históricas gravuras rupestres e a nossa
escrita actual, uma vez que a escrita europeia, bem como todas as outras formas
de escrita existentes à face da Terra, são simplificações mais ou menos
acentuadas desse tipo de expressão pré-histórica. É claro que a arte
rupestre tinha sobretudo um significado mágico e ritual, significado esse que
actualmente não existe na escrita, pelo menos não de um modo explícito ou
consciente. No entanto, sabemos que as formas mais primitivas de escrita foram,
durante séculos, quase exclusivas de sumo-sacerdotes ou feiticeiros tribais.
Estas escritas estavam impregnadas de símbolos primordiais ligados às religiões
primitivas. Como
se sabe, as escritas actuais evoluíram sempre no sentido de uma maior
simplificação. Deu-se um grande passo desde as primitivas escritas pictográficas
(que nem sequer poderão ser consideradas formas de escrita, como hoje a
concebemos) até à escrita cuneiforme suméria. Esta última forma respondia
sobretudo a necessidades contabilísticas e administrativas de uma civilização
florescente – a primeira civilização urbana – com um comércio
preponderante. A escrita exigia-se simples e padronizada, para que pudesse ser
escrita (gravada no barro) e lida pelos escribas (funcionários que, assim,
adquiriram um estatuto social elevado). Os fenícios, apontados como os
criadores remotos da nossa escrita, também inventaram um alfabeto simplificado
para facilitar as suas constantes actividades comerciais. Nas
escritas em que a evolução para a simplificação foi muito lenta, como é o
caso da escrita chinesa, ainda é possível associar a forma de alguns
caracteres aos símbolos que lhes deram origem. Na China, a escrita ainda é uma
arte com algum significado religioso, ao ponto de a sua estética e o seu
aperfeiçoamento estarem intimamente ligados à própria filosofia oriental. As primeiras abordagens psicológicas à escrita O
historiador romano Suetónio, na sua obra Vida
dos Doze Césares, descreve alguns aspectos da escrita de Octávio César
Augusto que considerava fora do comum, com o objectivo de tentar traçar o seu
perfil de personalidade. Porém, apesar de na Antiguidade Clássica alguns
outros autores terem colocado a hipótese de um possível conhecimento do ser
humano através da forma como escreve, não era nessa época possível que tal
hipótese viesse a ser materializada. A escrita era ainda privilégio de uma
escassíssima minoria e apenas se utilizava para determinado tipo de documentos. Na
Idade Média, a escrita europeia era ainda quase só utilizada por monges, para
a cópia de livros sagrados e para a produção de documentos de carácter
administrativo e legal. Por este último motivo, a escrita começou também a
ser cada vez mais utilizada por chanceleres e uma minoria de altos funcionários
de corte. Nos finais da Idade Média, a escrita ia perdendo progressivamente o
seu carácter religioso, embora, como se sabe, a mentalidade europeia da época
estava de tal forma impregnada de religiosidade cristã que mesmo os documentos
oficiais invocavam Cristo no seu protocolo formal. Com o florescimento das
primeiras universidades europeias, a escrita passou a ser também utilizada por
alguns eruditos. No entanto, fazer dela um instrumento de conhecimento do homem
ainda não passava de uma mera hipótese teórica: a escrita continuava a ser
privilégio de diminutas minorias. Com
o Renascimento e a Contra-Reforma, a escrita sofreu um grande incremento na sua
utilização. Não é também alheio o facto de, nesta época, ter sido
vulgarizada a imprensa. Seria de esperar que surgissem contribuições mais
concretas sobre a escrita como forma de conhecimento do homem. Conhecem-se
breves referências
ao espanhol Juan Huarte San Juan (em 1572) e, em 1610, ao napolitano Próspero
Aldorísio. Este último andava interessado em dar um nome à nova disciplina,
tendo escolhido Idengrafia. No
entanto, aquele que é considerado o primeiro livro dedicado exclusivamente ao
tema do conhecimento da personalidade através da escrita é de Camillo Baldi
(1547-1634), que foi professor de Filosofia na Universidade de Bolonha. Em 1622,
Camillo Baldi publicou o seu Tratatto come
da una lettera missiva si conoscono la natura e le qualitá dello scrivente.
Esta obra terá tido algum eco nos séculos seguintes. Durante
os séculos XVII e XVIII, vários outros autores escreveram ou publicaram sobre
o mesmo tema. O anatomista napolitano Marco Aurélio Severino (1580-1656)
abordou-o numa obra que não chegaria a ser publicada, devido à morte prematura
do autor. O filósofo Leibniz (1646-1716) defendeu também o princípio segundo
o qual a escrita espontânea reflecte o temperamento natural de cada ser humano.
Incentivado por Goethe, também Joahnn Kasper Lavater (1741-1801) dedicou parte
do seu estudo à escrita. Na sua obra Phisiognomische
Fragmente, Lavater incluiu um pequeno capítulo sobre este assunto,
afirmando que a escrita é o movimento mais variado e complexo produzido pelo
homem. A obra de Lavater influenciou muitos outros investigadores, entre os
quais Edouard Hocquart (1787-1870) – autor da obra L'art de juger du caractère des gens d'aprés leur écriture,
publicada em 1812 – e o abade Jean-Hyppolite Michon (1806-1881). O surgimento dos primeiros tratados de interpretação psicológica da
escrita Subprodutos
do Iluminismo e, em especial, da Revolução Francesa, as reformas liberais
levadas a cabo na primeira metade do século XIX um pouco por toda a Europa
generalizaram as escolas das primeiras letras. Cada vez mais pessoas podiam aprender a ler e a
escrever, embora, na prática, só as classes sociais com algumas posses o
pudessem fazer. Torna-se cada vez maior a utilização da escrita na vida diária
e é nesta época que se dá uma verdadeira "explosão" na edição de
livros e jornais: uma significativa parte da sociedade era já alfabetizada e a
comunicação escrita podia começar a dirigir-se às massas. Seria de prever que o estudo sistemático da escrita tivesse
aqui o seu verdadeiro arranque. Na
França de meados do século XIX, várias eram já as pessoas que se dedicavam
ao estudo do tema, entre as quais alguns eclesiásticos. Por volta de 1830,
existiria já uma escola para estudo e
interpretação da escrita, dirigida pelo abade Flandrin (1809-1864). Foi também
um abade – o já referido Jean-Hyppolite Michon (discípulo de Flandrin) –
quem terá atribuído à emergente disciplina o nome graphologie, tendo publicado algumas obras exaustivas sobre o tema,
nos anos 70 do século XIX. A sua principal obra foi publicada em 1875 e
intitulava-se Systéme de graphologie.
Michon foi também o fundador da actual Societé
Française de Graphologie e da revista La
graphologie que, apesar de algumas interrupções, ainda hoje se publica,
sendo a revista da especialidade mais antiga e mais lida no mundo. Michon
pode ser considerado um percursor da actual Psicologia da Escrita, por ter sido
o primeiro a publicar com sucesso um método tido como completo para o estudo da
escrita, método esse baseado nos seus trinta anos de investigação.
Contudo, o método de Michon hoje em dia não é sequer ensinado, tendo-se há
muito concluído que era deficiente e rudimentar. Michon, no entanto, não
poderia ter feito melhor uma vez que, em 1875, a própria Psicologia não possuía
ainda um corpus científico sólido. As teorias de Michon baseavam-se em
interpretações mais ou menos fixas de cada aspecto gráfico da caligrafia,
facto que não pressupunha, desde logo, a interacção de caracteres na
personalidade humana, resultando obviamente em graves erros. Jules
Crépieux-Jamin (1859-1940), aluno e crítico de Michon, foi o continuador deste
último, tendo publicado em 1888 a importante obra L'écriture
et le caractère. Esta obra, que conheceu inúmeras edições posteriores,
lançou as bases para um método mais credível de estudo da escrita do ponto de
vista psicológico, tendo dado origem à chamada escola
francesa. No seu posterior livro, ABC
de la graphologie, editado em 1929, Crépieux-Jamin reúne cinquenta anos de
investigação. Porém, nesta obra, Crépieux-Jamin poderia ter avançado muito
mais – servindo-se de alguns dos progressos que a Psicologia em geral tinha já
alcançado, nomeadamente a terminologia e as concepções então muito em voga
dentro da Psicanálise.
Crépieux-Jamin não fez
o suficiente para que o estudo da personalidade através da escrita pudesse vir
a ganhar o estatuto de disciplina auxiliar da Psicologia. O psicólogo Ludwig
Klages (1872-1956) foi, neste aspecto, um pouco mais feliz. Klages aplicou ao
estudo da personalidade as suas concepções vitalistas (influenciadas pela
filosofia de Bergson) e procurou fazer a ponte com a Psicanálise. Contudo, o
seu método era bastante complexo e foi frequentemente criticado como sendo
muito subjectivo e de difícil ensino. Ainda assim, Ludwig Klages foi a
principal figura de uma nova corrente de investigação e lançou mesmo as bases
da chamada escola alemã, através da
sua obra fundamental Handschrift und
Charakter, publicada em 1917. Em
Itália nasceu também uma outra importante escola,
iniciada pelo padre Girolamo Moretti (1879-1963), homem de rara cultura e espírito
científico. O método que propôs é sobretudo muito didáctico e de uma grande
sistematização. Este método, apesar de ser superior ao de Klages e ao de Crépieux-Jamin,
enfermou do mesmo problema dos métodos anteriores: não utilizou minimamente as
abordagens da Psicologia moderna.
De método de conhecimento do homem a disciplina auxiliar da
Psicologia
Em meados do século XX, apesar de ser já uma técnica fiável, o estudo
da personalidade através da caligrafia continuava a ser feito de forma
basicamente empírica. Não existia sobretudo uma investigação concreta e em
larga escala sobre a veracidade dos diagnósticos. Para além do mais, o estudo
da caligrafia humana entendido como uma arte, sem grandes exigências
profissionais ou éticas, continuou a ser a via preferida pelos seus
entusiastas, dando azo a que também muitos oportunistas e charlatães
espalhassem por toda a parte os seus diagnósticos errados e irresponsáveis.
Este facto fez com que, a prazo e ignorando a evolução geral da disciplina, a
opinião pública visse o estudo da personalidade através da escrita como um
mero jogo de salão.
Em
finais do século XIX, um dos maiores vultos da Psicologia francesa e professor
na Faculdade de Medicina de Paris – Charles Richet, afirmava o seguinte sobre
o estudo da personalidade através da escrita: O
princípio é certamente verdadeiro mas considero-me absolutamente incapaz de
decidir de que forma e em que medida. Actualmente parece-me que existe mais de
fantasia do que de ciência. Mas um dia virá, talvez, em que ela se torne científica.
Richet tinha toda a razão. Não só o estudo da personalidade através da
escrita era então maioritariamente exercido por incompetentes, como a própria
linguagem técnica utilizada era totalmente alheia às concepções da moderna
Psicologia, por culpa dos próprios estudiosos, alguns dos quais faziam bandeira
desse facto, tendo em vista a conquista de um estatuto autónomo para a
disciplina. Exemplo paradigmático deste facto foi a conferência dada por
Klages na Sociedade Psicanalítica de Viena, em 25 de Outubro de 1911. A partir
das actas dessa sessão, intitulada Da
Psicologia da Escrita, podemos perceber a razão porque nunca a Psicanálise
aproveitou as possibilidades que o estudo da escrita oferecia. Enquanto Klages
dissertava sobre uma concepção de personalidade totalmente inovadora, derivada
da sua experiência como psicólogo da escrita, Freud e seus pares rebatiam com
concepções psicanalíticas que não encontravam paralelo no discurso de
Klages. Foi impossível o estabelecimento de analogias entre os conceitos de
cada sistema teórico, resultando num verdadeiro diálogo
de surdos. No final, Freud ainda realçou a utilidade da Psicologia da
Escrita para determinados problemas psiquiátricos e assumiu a sua importância
em áreas que estavam para além do trabalho do psicanalista. As coisas ficariam
por aqui. Freud acabaria por justificar o seu pouco interesse prático pelo
estudo da escrita através de uma desculpa diplomática mas com sentido: para um
psicanalista – como ele próprio se considerava – a Psicologia da Escrita não
era grande ajuda, uma vez que a Psicanálise procurava, antes de mais, os
factos.
Nesta
época, o estudo da personalidade através da escrita não podia ser considerado
como ramo auxiliar da Psicologia, uma vez que ainda ignorava, ou fingia ignorar,
as suas modernas concepções de personalidade. A aplicação à escrita da
terminologia psicanalítica e da Psicologia moderna em geral foi apenas tentada
no início da década de 1930. O psicólogo Max Pulver (1889-1952) deu o
primeiro grande passo, não só com as numerosas palestras sobre Psicologia da
Escrita que proferiu na Universidade de Zurique, mas sobretudo com a publicação,
em 1931, da sua principal obra Simbolik
der Handschrift. Nesta obra, Pulver aplicou à escrita as concepções do
simbolismo espacial, ligadas à teoria do Inconsciente
Colectivo de Jung. A obra de Pulver foi muito importante, não só para a
Psicologia da Escrita, como também para a concepção de muitos dos testes gráficos
ainda hoje utilizados pela Psicologia como método projectivo. Referenciemos o
teste da árvore (Koch/Stora), o teste da família (Corman), o teste das
estrelas e das ondas (Avé-Lallemant), os vários testes da figura humana, o
teste da personagem à chuva, o teste da paisagem (A. Arthus), o teste de
Wartegg e, mesmo que indirectamente, o próprio psicodiagnóstico de Rorschach,
uma vez que este último baseia-se em apreciações relacionadas com estímulos
gráficos.
Ania
Teillard (†1978), psicanalista colaboradora de Jung, é também um nome
importante na evolução da Psicologia da Escrita. Em 1948, Ania Teillard
publica a sua principal obra L'Âme et
l'ecriture. O subtítulo da obra é bastante mais esclarecedor:
Traité de graphologie fondé sur la psychologie analytique. De facto, era
disso que se tratava: a primeira obra destinada a provar que a Psicologia de
Jung fundamentava a teorização já existente sobre o estudo da escrita de um
ponto de vista psicológico. Mas o subtítulo desta obra reflecte também como a
mesma teria de ter forçosamente um alcance limitado. De facto, a palavra "graphologie"
– escolhida por Michon, no século anterior, para designar a disciplina –
teimava em persistir, sobretudo junto da escola francesa. Tal atavismo
prejudicava enormemente a credibilização da disciplina junto da comunidade
científica. Depois
das obras de Binet, foram os livros de M. Pulver e de A. Teillard aqueles que
mais solidamente concluíram pela cientificidade dos princípios que os
percursores tinham defendido, abrindo caminho para a inclusão progressiva do
estudo da escrita nas correntes modernas da Psicologia. Se é verdade que a
partir desta altura, a grafologia passava a poder ter uma linguagem comum
à Psicologia e, consequentemente, a poder ser utilizada por psicólogos como
complemento dos seus diagnósticos, na prática, porém, a situação manteve-se
inalterável: só muito lentamente os estudiosos da caligrafia começaram a
encarar a disciplina como uma técnica que necessitava de se basear em todas as
novas abordagens da Psicologia para se manter actual e perseguir o objectivo de
sair do estatuto de mera arte de conhecer os homens pela escrita para passar a ser uma
disciplina científica autónoma. Apenas
na década de 1950, alguns investigadores ligados à actual Societé Française de Graphologie começaram a incluir no discurso
da disciplina algumas perspectivas da Psicologia moderna, nomeadamente de Jung,
Freud e Adler. Jung foi, desde o início, o preferido pela escola
francesa, muito pela circunstância de ter sido o primeiro psicanalista de
nomeada a ver introduzidas as suas teorias no estudo da personalidade através
da escrita. A Psicologia da Escrita como ciência experimental Com
a adopção da linguagem e dos métodos da Psicologia actual, o estudo da
personalidade através da escrita pôde aspirar a ser uma verdadeira Psicologia
da Escrita. Na prática, porém, a situação modificou-se de forma lenta até
aos dias de hoje. A antiquada designação "grafologia" tem-se
mantido na maior parte das escolas, em especial porque a corrente clássica
francesa resiste a abandonar um nome que tem largas tradições neste país,
mesmo que a questão da designação prejudique a implantação da disciplina
nas universidades francesas. Por outro lado, alguns autores actuais ainda
sustentam que a grafologia deve continuar independente da Psicologia e a
questão da designação, neste caso, nem sequer se põe. Apesar
de tudo, a aplicação concreta (e em larga escala) das concepções actuais da
Psicologia moderna ao estudo da personalidade através da escrita é um dado
relativamente – dos últimos quarenta anos. Daí que o momento actual da
disciplina seja bastante peculiar. Alguns investigadores mais idosos, reféns
ainda de concepções de há meio século atrás, coexistem com investigadores
mais novos que, felizmente têm impulsionado enormemente a disciplina.
Actualmente, podemos distinguir como investigação de charneira os trabalhos da
escola morettiana, ligada à Universidade de Urbino (Lamberto Torbidoni, Silvio
Lena, Pacifico Cristofanelli, entre outros), alguns autores ligados à S.F.D.G.
e ao G.G.C.F. (Jacqueline Peugeot, Arlette Lombard, Robert Olivaux, entre
outros), entre vários outros exemplos de associações a nível europeu.
Mencionemos também a Agrupación de Grafoanalistas Consultivos de España
que, nos últimos anos, tem desenvolvido um trabalho de investigação e de
divulgação muito interessante na região de Barcelona.
A Psicologia da Escrita em Portugal
É
difícil apurar por que vias a escrita começou a ser estudada em Portugal.
Contudo, sabemos que o advogado e perito calígrafo portuense Abílio Monteiro,
pelo menos desde 1887, pretendia o reconhecimento do estudo da personalidade
através da escrita como uma sciencia
verdadeira e positiva, baseada em factos, embora estivesse consciente de que
as teorias então
Na
década de 1920, duas supostas grafólogas (Madame Brune e Madame Memphis)
faziam análises de caligrafia para as revistas femininas ABC
e Magazine Bertrand, respectivamente. Mas quem eram e que formação
tinham estas duas senhoras? Porque usavam um pseudónimo? Seriam realmente
portuguesas? Todas as indicações que temos nos levam a crer que, em Portugal,
os primeiros "grafólogos" foram meros oportunistas ou charlatães.
Assim se explica também porque, no nosso país, o interesse por esta matéria
tenha ficado adormecido durante muitas décadas. Anos
após os contributos dados por Abílio Monteiro, alguns autores portugueses
publicaram trabalhos sobre a escrita, como o Coronel Numa Pompílio da Silva,
embora o pequeno livro que escreveu se afaste um pouco do tema, entrando mais na
vertente da colecção de autógrafos. O Livro
dos Reis e Presidentes da República, publicado em 1954 por Albino Lapa,
refere a colaboração de um Instituto
Grafológico Português, que não era uma organização de âmbito nacional,
mas um mero gabinete. São referenciados como pertencentes a este
"instituto" os Drs. A. M. da Fonseca e J. J. Ferreira.
Nenhum destes autores revela propriamente uma investigação. Assim, é
muito difícil saber quem em Portugal se dedicou seriamente ao estudo da
escrita. Os poucos verdadeiros estudiosos de que tivemos conhecimento encontrámo-los
numa faixa social minoritária, de estatuto sociocultural elevado. Pelos dados
que temos, trataram-se apenas de estudiosos isolados entre si, ruminando as
teorias que vinham especialmente de França, não trazendo grande mais-valia
para a disciplina. É facto que, desde meados do século XX, alguns portugueses
têm vindo a traduzir livros sobre o assunto, mas todos estes livros são de
qualidade duvidosa ou mesmo muito má. Pelo
nosso conhecimento, foram muito poucos os portugueses que até hoje publicaram
trabalhos de investigação na área do estudo da escrita. Podemos referenciar
alguns nomes: ·
Mateus Neves, legista e professor universitário que, em
1954, publicou um artigo na Revue Internationale de Police Criminelle
intitulado Ressemblances de famille des
textes manuscrites. ·
O professor universitário Delfim Santos, que publicou Psicografia
de um rei (Análise Grafocaracterológica), incluída no livro de A. Luiz
Gomes: D. Carlos I e D. Luís Filipe.
Palavras de evocação e apreço, publicado em 1958 pela Fundação da Casa
de Bragança. ·
Francisco de Castro Carneiro, cuja Tese de Licenciatura se
subordinou ao tema: A grafologia e o
conhecimento do homem, tendo sido publicada pela Faculdade de Filosofia de
Braga em 1966. Francisco de Castro Carneiro viria a ser docente da Faculdade de
Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. ·
Manuel Lopes da Silva que, em 1986, apresentou em Espanha
uma comunicação sobre Jack o
estripador. ·
Leonor de Carvalho Daun e Lorena de Pombal, que foi
detentora do diploma do G.G.C.F., reconhecido pelo governo francês como
equivalente a uma licenciatura. Leonor Pombal teve uma projecção profissional
muito maior em França, até porque a sua única obra referenciada (a monografia
que lhe permitiu a entrada para o G.G.C.F) foi escrita em francês: Poésie
et graphologie. Étude sur le graphisme de poètes portuguais modernes et
contemporains, de 1971. De
todos estes nomes, Leonor Pombal destaca-se claramente, até porque chegou a
ministrar aulas sobre o estudo da escrita, destinadas a uma audiência muito
restrita, em grande parte pertencente à elite social e intelectual lisboeta da
década de 1970. Foi sobretudo através de Leonor Pombal que se formou em Lisboa
um pequeno grupo de interessados sobre o tema. Alguns passaram a dedicar-se de
forma quase profissional ao estudo da escrita, o que não significa que todos o
tivessem feito da forma mais recomendável, por vezes contribuindo para desacreditar a disciplina. Em
meados da década de 1990, o estudo da escrita em Portugal quase se limitava a
um hobbie de elite para alguns
intelectuais de uma geração mais velha, residentes sobretudo nos arredores de
Lisboa. Ainda não tinha nascido em Portugal uma verdadeira Psicologia
da Escrita, sendo notória a ausência de uma geração de investigadores
jovens com formação universitária, que procurassem no estudo da escrita uma
ferramenta psicológica destinada a exercer uma actividade profissional
especializada e séria. Portugal era então um dos países da Europa ocidental
em que o estudo da escrita numa perspectiva psicológica estava menos
desenvolvido, havendo mais de quarenta anos de atraso em relação aos países
de charneira. No
sentido de alterar este panorama desolador, lançámos um curso
de introdução à grafologia o qual, pela primeira vez em Portugal,
realizou-se num estabelecimento de ensino universitário, em Março de 1994.
Esta experiência insipiente provou que existia um grande interesse na matéria,
sobretudo por parte dos estudantes de Psicologia. Nesse sentido, aprofundámos a
investigação que já realizávamos desde 1990 e fizemos um grande esforço
para melhorar o programa do curso, eliminando definitivamente a já ultrapassada
designação grafologia, a qual se prestava a algumas confusões. Até 2009 tinham decorrido já dezanove edições do Curso de Introdução à Psicologia da Escrita, sempre realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Também decorreu, em 1996, uma edição do mesmo curso na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e, mais recentemente, no Instituto Politécnico de Tomar e no ISLA de Leiria. Já frequentaram este curso bem mais de 800 pessoas, na sua maioria estudantes de Psicologia e de ciências afins, sem contar com as várias dezenas de pessoas que frequentaram os nossos seminários sobre Psicologia da Escrita aplicada à infância e à juventude, especialmente no âmbito da formação contínua de professores.
Em
suma, os cursos de Introdução à Psicologia da Escrita realizados na Faculdade
de Letras do Porto desde 1994 vieram alterar bastante o panorama do estudo da
escrita em Portugal. Mesmo que estejamos ainda no início e mesmo que a publicação
do boletim Grafismo tivesse de ser suspensa por falta de autores a
escrever em português sobre o tema, a verdade é que nunca como hoje a
Psicologia da Escrita foi tão requisitada em Portugal, a vários níveis.
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© Francisco Queiroz, 2004 Última actualização: 03/24/09 |