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Actualmente, Psicologia da Escrita, grafopsicologia, grafoanálise ou grafologia podem designar uma mesma disciplina – conforme os vários países
e escolas. Quanto a nós, a designação correcta para o estudo da
personalidade através da escrita é Psicologia da Escrita, porque é
disso mesmo que se trata: a abordagem à escrita de um ponto de vista
psicológico.
Esta confusão de designações reflecte a enorme diferença, em termos de
credibilidade e de rigor científico, de escola para escola e de
instituto para instituto, diferença essa sentida por vezes dentro de um mesmo
país. Assim, se é verdade que a Psicologia da Escrita está implantada um
pouco por todo o mundo, o seu estudo está bastante mais desenvolvido nos países
onde o seu surgimento foi mais precoce (França); onde a sua aproximação à
Psicologia foi mais bem conseguida (Suíça e Alemanha); ou onde a sua aplicação
prática foi gerida por um grupo forte de investigadores (Itália). Na Europa
situam-se, pois, as melhores associações e os melhores profissionais. Em países
como França, Alemanha, Suíça, Bélgica, Itália e Espanha, as actividades
regulares em torno da Psicologia da Escrita são inúmeras. Na
Alemanha, onde nasceu grande parte das teorias nas áreas da Psicologia e da
Psiquiatria, a Psicologia da Escrita entrou nos currículos universitários
desde os anos 40. Rudolf Pophal, neurologista e investigador sobre as relações
entre o cérebro e a escrita, terá sido o primeiro a leccionar uma cadeira de
Psicologia da Escrita numa universidade. Fê-lo entre 1946 e 1958 na Faculdade
de Medicina da Universidade de Hamburgo. Depois deste pioneiro, outras
universidades alemãs acolheram disciplinas de Psicologia da Escrita, bem como pós-graduações
para psicólogos e médicos (sem as quais, os psicólogos da escrita não podem
ser autorizados a exercer a profissão). Entre estas, podem ser citadas as
universidades de Tübingen, Heidelberg, Colónia, Berlim Ocidental, Mainz ou
Bielefeld. A
este pioneirismo da introdução da Psicologia da Escrita nas universidades alemãs
não deve ser alheio o facto de neste país a designação grafologia
ter sido relativamente pouco utilizada. Desde o início da disciplina, os
maiores vultos da Psicologia da Escrita alemã foram quase sempre pessoas de
formação universitária ligadas à Medicina, à Psicologia e à Filosofia.
Porém,
na Alemanha, a Psicologia da Escrita foi sempre uma disciplina muito teórica e
algo académica, não tendo sido capaz de se alargar para outras áreas mais
práticas. Na
Suíça, o ensino da Psicologia da Escrita é feito, na sua maioria, em
institutos superiores privados, nos quais – após dois anos de base só com
Psicologia – existe a possibilidade de especialização como psicólogo
da escrita. A Psicologia da Escrita é considerada uma especialização da
Psicologia aplicada, da mesma forma que existem especializações semelhantes no
teste de Rorschach, por exemplo. Em Itália, na prestigiada Universidade de Urbino existe mesmo uma scuola di studi grafologici com várias licenciaturas de especialização dentro da Psicologia da Escrita aplicada: recursos humanos; casal e família; idades evolutivas e área judicial. Mais recentemente, estes estudos podem ser realizados ao nível universitário na LUMSA, de Roma. Em Urbino, criou-se recentemente o primeiro Mestrado italiano nesta área, depois estendido a Turim (em 2009). Em
universidades de vários países, foram já apresentadas algumas teses sobre a
Psicologia da Escrita. Quanto a teses que usaram a Psicologia da Escrita como método
de investigação, são já inúmeras, incluindo-se a nossa própria Tese de
Doutoramento, que é em História da Arte. De facto, mesmo ao nível académico,
a Psicologia da Escrita não está só ligada à Psicologia. Na Europa, existem
algumas disciplinas de Psicologia da Escrita (ou disciplinas equiparáveis) em
faculdades de Medicina, de Direito, e até de Letras. Mesmo em países como a Argentina, o Brasil ou a Polónia (entre outros) a
Psicologia da Escrita é incluída nos currículos de disciplinas universitárias
e pode mesmo existir, de forma autónoma, como disciplina. Ainda
assim, a situação actual da Psicologia da Escrita é paradoxal. Em alguns países
com menor implantação da disciplina – como Portugal, quase ninguém sabe do
que se trata. Nestes países, a palavra grafologia
é ainda frequentemente apregoada e utilizada, com laivos de sensacionalismo,
por alguns amadores ou por profissionais menos capazes, de modo a proporcionar
rendimentos fáceis. Efectivamente, para se poder ser grafólogo, basta
frequentar um dos muitos institutos que existem pela Europa. Porque estes são
maioritariamente institutos privados não certificados e com corpo docente de
baixa qualificação, a qualidade do ensino ministrado varia bastante, existindo
muita formação de péssima qualidade nesta área. Por vezes, os cursos que
formam grafólogos duram somente dois anos, em horário pós-laboral. Os
supostos profissionais detentores deste tipo de diplomas não se podem comparar
a outros que têm de estudar durante quatro anos (ou mais) nos melhores
institutos europeus. Perante a opinião pública, são todos grafólogos,
mas a sua competência varia de forma abismal. Esta
questão está, obviamente, ligada ao problema da designação da disciplina:
poderá alguém ser psicólogo da escrita sem primeiro ser psicólogo?
Ora, se para se ser psicólogo da escrita é fundamental obter formação nas
duas vertentes: a escrita e a Psicologia, então não é admissível que existam
profissionais na área sem formação de base e apenas com cursos de dois anos,
por vezes totalmente por correspondência e ensinados por uma única pessoa!
Esta situação é geradora de um círculo vicioso e eterniza o preconceito de
alguma comunidade científica relativamente ao estudo da personalidade através
da escrita, inviabilizando a generalização da Psicologia da Escrita como matéria
universitária, sobretudo se lhe continuarem a chamar grafologia. Sendo
verdade que em alguns países europeus a Psicologia da Escrita é ensinada nas
Universidades, também é verdade que – à excepção da Itália – a
Psicologia da Escrita é normalmente um complemento de outras licenciaturas (sobretudo
em formato de pós-graduação). Tal significa que obter uma licenciatura de
qualidade em Psicologia da Escrita através de uma universidade ainda é uma
tarefa impossível em muitos países. Tomemos o caso de Portugal: quem iria
leccionar as matérias especificamente ligadas à escrita? Ainda não existem no
nosso país professores com formação académica suficiente para tal. Apesar de
tudo, não se pode negar que, nas últimas duas décadas, a Psicologia da
Escrita tem sofrido um grande surto de desenvolvimento, especialmente em países
como a França, Itália, Alemanha, Suíça, Bélgica, Inglaterra ou Espanha,
onde associações fortes e bons investigadores têm conseguido criar alguma
legislação reguladora da profissão, procurando separar as águas e
relegar para a sombra os praticantes empiristas de uma grafologia
antiquada, bem como os (muitos) incompetentes. Surgiram algumas organizações
internacionais de fiscalização, entre as quais a recente Associação Deontológica
Europeia, que reúne as organizações mais prestigiadas em volta de um rígido
código deontológico comum. Em muitos países europeus, alguma investigação
de ponta nas áreas da Psicologia, Psiquiatria, Peritagem de Documentos e mesmo
na Medicina é já conduzida em colaboração com os melhores institutos de
Psicologia da Escrita. Alguns destes últimos são subsidiados pelos respectivos
governos e outros possuem o estatuto de instituição
de utilidade pública, como o caso da S.F.D.G. Por outro lado, nos países
da Europa de Leste (sobretudo a Hungria, a Polónia e a Roménia), o interesse
pela Psicologia da Escrita tem crescido imenso.
Em Portugal, a formação disponível em Psicologia da Escrita no âmbito universitário é ainda de carácter introdutório. Saiba mais sobre os cursos de Psicologia da Escrita que se realizam regularmente em Portugal. |
© Francisco Queiroz, 2004-2010 Última actualização: 11/17/09 |