Towards a Handwriting Psychology

F.A.Q. - Perguntas mais frequentes

 

 

 

A expressão “eu sou como escrevo” é correcta para definir a base da Psicologia da Escrita?

A escrita é um espelho da personalidade, mas nem toda a personalidade fica registada nesse espelho. Por isso, mais correcto será afirmar: “eu escrevo como sou, mas nem tudo o que sou está reflectido no que escrevo”.

 

 

 

Conheço um amigo que me diz não ser passível de estudo através da escrita, porque tem várias “letras”. Isto é verdade?

Nem tudo na personalidade é fixo. Ela vai-se desenvolvendo e alterando, sendo o resultado sedimentado de experiências físicas, espirituais e emocionais. A vantagem de um estudo de personalidade com base na escrita é a de que esse estudo nos dá também informações sobre como estamos nesse momento, caso possamos fazer comparação com uma amostra manuscrita anterior. Tal como a agulha de um sismógrafo, a caneta vai expressando não só a personalidade mas também o estado de espírito. Por isso, em pessoas mais inconstantes, ou debaixo de circunstâncias especiais, a escrita pode variar significativamente de um dia para o outro. Contudo, o essencial do carácter único e pessoal da escrita está sempre presente e as variações ocorrem sobretudo em aspectos da escrita aos quais não se dá grande importância, precisamente porque se sabe o quanto se modificam, conforme os estados de espírito.

Em suma, ninguém tem mais do que uma “letra”. A escrita é só uma, porque a escrita é um gesto: numa mesma pessoa, duas letras “a” propositadamente diferentes acabam por ser traçadas com o mesmo gesto, porque se trata de um mesmo indivíduo, sendo a sua escrita a combinação pessoal e irrepetível de centenas de aspectos gráficos. Não existem escritas absolutamente iguais em duas pessoas diferentes, nem mesmo em gémeos monozigóticos. Se assim não o fosse, com que fundamento poderia ser usada a escrita na criminologia?

 

 

 

A escrita de um esquerdino pode ser estudada da mesma forma que a de um dextro?

Independentemente de como se pega numa caneta ou da mão que é utilizada, a escrita evolui na folha de acordo com impulsos transmitidos pelo cérebro através do sistema nervoso e dos músculos do braço e pulso. A escrita de um esquerdino pode ser estudada tal como a de um dextro, mas não exactamente da mesma forma. Certos detalhes da escrita de um esquerdino devem-se a uma maior facilidade em traçar a escrita, mas podem ter causas diferentes num dextro.

 

 

 

A Psicologia da Escrita é uma ciência?

A resposta a esta questão não pode ser dada de forma simplista. De facto, o estudo da escrita nasceu antes da Psicologia se ter emancipado como disciplina científica. Porém, este estudo do grafismo manteve uma certa conotação elitista e alguns dos mais conhecidos percursores procuraram seguir uma linha própria e independente dos avanços da Psicologia, o que dificultou a credibilização do estudo da escrita como uma técnica séria no diagnóstico da personalidade humana.

Por outras palavras, a Psicologia da Escrita e a Psicologia partilham o mesmo objecto, o mesmo método e os mesmos princípios de cientificidade inerentes a qualquer ciência humana (em que a infalibilidade não pode ser alcançada). Contudo, a Psicologia da Escrita – como ciência – é ainda muito recente, pois só há algumas décadas se começou a realizar investigação numa escala suficientemente vasta para poder produzir dados fiáveis. Até então, a investigação era pouco articulada, diminuta, sem propósito de confrontação com outros métodos psicológicos, raiando por vezes o mero empirismo.

 

 

 

Grafologia e Psicologia da Escrita são a mesma coisa?

De todas as designações propostas no século XIX para dar nome ao estudo da escrita com o objectivo de conhecer a personalidade, a palavra “grafologia” foi a que mais se implantou e permaneceu, sobretudo em França. Note-se que a grafologia, inicialmente, não pretendia ser um ramo da Psicologia – que nem sequer existia como ciência. Hoje, existem grafólogos que – pode afirmar-se – praticam Psicologia da Escrita, até porque possuem geralmente licenciatura de base em Psicologia. Porém, existem também muitos grafólogos que praticam uma disciplina sem fundamentação psicológica e, consequentemente, sem validade científica. Por esta razão, tem-se assistido nos últimos anos a uma separação entre as duas designações, mesmo que tal tenha de se fazer lentamente, até porque as gerações mais antigas de profissionais não são muito dadas a mudanças. Contudo, porque Portugal não tem grande implantação internacional nesta área de estudo, é possível dentro de algum tempo acabar de vez com a confusão entre a antiga grafologia e a actual Psicologia da Escrita.

A grafologia é uma técnica empírica que evoluiu bastante no século XX, mas que também deu origem a métodos teóricos notoriamente falíveis e, por conseguinte, sem verdadeira utilidade. A Psicologia da Escrita é à versão científica e actualizada da grafologia e o único caminho possível para que o estudo da escrita continue a assumir cada vez maior preponderância dentro dos métodos de diagnóstico de personalidade. A Psicologia da Escrita deve ser exercida apenas por psicólogos, com formação adicional em Psicologia da Escrita. Em Portugal isso não é fácil, pois a formação em Psicologia da Escrita existente no nosso país é extremamente limitada e, mesmo para um psicólogo, é necessário um mínimo de três anos de estudos para poder dominar minimamente a Psicologia da Escrita.

 

 

 

Tenciono pedir a alguém que auto intitula-se “grafólogo” para me fazer um estudo de personalidade, mas agora não sei se o devo fazer, já que muitos grafólogos não são credíveis. Como agir?

A grafologia, como já dissemos, nasceu como um conhecimento empírico, mas a fundamentação – provou-se mais tarde – é científica e por isso é que da grafologia pôde nascer há alguns anos a Psicologia da Escrita. É verdade que debaixo do nome “grafólogo” pode abrigar-se desde o mais insuspeito profissional ao mero curioso e diletante, passando mesmo pelo charlatão. Para evitar dissabores, siga os seguintes passos:

- Certifique-se que o “grafólogo” é também psicólogo, pois pode tratar-se de um verdadeiro psicólogo da escrita que ainda use a terminologia profissional antiquada de “grafólogo”.

- Caso o “grafólogo” não seja licenciado em Psicologia, certifique-se que possui formação universitária em Neurologia ou em Psiquiatria.

- Se não for também esse o caso, questione-o sobre qual o curso que frequentou para se poder declarar “grafólogo” e qual a duração do mesmo.

- Saiba que toda a formação na área que seja inferior a três anos não pode ser considerada válida e mesmo alguns cursos com essa duração não têm validade científica. Assim, caso não tenha ficado convencido(a) com as informações dadas pelo “grafólogo”, procure saber se é membro credenciado de alguma associação que está filiada na A.D.E.G. – Associação Deontológica Europeia.

- Por último, mesmo seguindo todos estes passos e obtendo respostas satisfatórias, pode ainda assim ter alguma surpresa desagradável, pelo que aconselhamos sempre prudência. Seria bom que existisse em Portugal um directório com os nomes dos profissionais do estudo da escrita que estejam creditados para exercer a profissão, mas a verdade é que não temos entidade científica capaz para fazer essa creditação.

 

 

 

A Psicologia da Escrita terá utilidade num futuro breve, tendo em conta que cada vez se escreve menos?

Nos últimos anos, o estudo da escrita como método de diagnóstico de personalidade tem originado um crescente interesse na comunidade científica internacional. Precisamente pelo facto dos avanços nesta área terem sido tão rápidos, actualmente pode-se já falar numa verdadeira Psicologia da Escrita, como um ramo experimental da Psicologia. Assim, não só o interesse por esta área – não já numa perspectiva empírica, mas sim científica – é crescente, como a escrita continuará a ser usada durante, pelos menos, mais algumas gerações, pois as nossas crianças continuam hoje a aprender a ler e a escrever. Ora a escrita, mesmo que ligeiramente entorpecida na idade adulta por quem não tem hábito de escrever, é algo que não só não se desaprende, como evolui formalmente na sua quase totalidade durante a adolescência – um período em que qualquer português escolarizado tem de escrever bastante.

 

 

 

Ainda hoje, muitos portugueses mais atentos associam o estudo da escrita a uma técnica subjectiva, quase aleatória e pouco rigorosa. Suponho que isto esteja errado, mas gostava de saber quais as razões para este facto.

As principais razões são:

·   a associação que existe ainda entre o estudo da escrita com objectivo de melhor conhecer o ser humano e a antiquada designação grafologia;

·   os péssimos livros que, sob essa designação, se vendem em Portugal;

·   a inexistência de qualquer legislação específica sobre a profissão em Portugal;

·   a inexistência de uma classe profissional na área que esteja sujeita a um código deontológico e a uma credenciação profissional;

·   a ausência de qualquer curso superior sobre a matéria,

·   a tendência para a falta de seriedade de que se impregna o tema quando este é levianamente abordado nos media.

Os portugueses têm razão para ficar com uma imagem pouco rigorosa da disciplina, porque a verdade é que a maior parte do que hoje se diz em Portugal sobre o tema da escrita são disparates. Por essa razão, o Curso de Introdução à Psicologia da Escrita, que existe desde 1994 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e outras acções que temos vindo a desenvolver destinam-se a informar correctamente em que se fundamenta o diagnóstico de personalidade através da escrita.

 

 

 

Gostava de saber quais são, então, os principais disparates que hoje em dia se dizem e se lêem em Portugal sobre o tema da escrita.

O principal disparate que se pode ler nos livros de péssima qualidade que se vendem em livrarias (nomeadamente em hipermercados) é a associação directa entre determinadas formas de letra e características de personalidade. Esta associação directa não tem base científica e é típica de quem não sabe sequer o que é a escrita, decompondo-a em partes para tentar atirar hipóteses para o ar, conforme o formato e a dimensão de cada letra. Outro disparate que também se ouve de vez em quando nos media portugueses é o de que a escrita pode dar informações sobre traumas de infância e mesmo sobre como foi a nossa relação com a mãe, recuando até à gravidez! Tal não só não é possível através da escrita (lembre-se que a escrita só começa a ser aprendida aos seis anos e personaliza-se apenas a partir dos 10/11 anos), como duvidamos sequer que possa ser possível por outros métodos semelhantes. A escrita não pode – de modo algum – determinar factos. Não está também provado que a escrita possa servir de forma eficaz como terapia de sugestão, embora haja quem o faça, mesmo sem ser psicólogo (o que é, no mínimo, discutível).

 

 

 

Li há tempos, numa revista, uma entrevista em que se referia Roseline Crepy, a qual teria publicado umas obras revolucionárias para a evolução do estudo de personalidade através da escrita, mas não encontro qualquer obra dessas à venda em Portugal. O que devo fazer?

É provável que tenha lido essa referência numa entrevista feita a Alberto Vaz da Silva - advogado que organizou alguns cursos introdutivos no Centro Nacional de Cultura e que nutre especial admiração por esta autora belga. Roseline Crepy publicou efectivamente alguns trabalhos, mas em nossa opinião seguiu sobretudo uma linha pouco científica, razão pela qual nem sequer é citada na principal bibliografia internacional. Roseline Crepy não trouxe qualquer "revolução" ao estudo da escrita. Antes pelo contrário: prejudicou o panorama da disciplina, lançando certa confusão junto de algumas pessoas que se interessam pelo tema mas que ainda não possuem capacidade crítica para discernir entre teorias bem fundamentadas e meras especulações.

 

 

 

Porque razão se lêem tantas coisas contraditórias sobre as possibilidades e os limites da escrita como método de análise psicológica?

Existem várias razões para este facto, mas algumas são muito mais determinantes. Por exemplo, a negligência com que normalmente é vista a necessidade de comprovar a posteriori o diagnóstico, levando a que surjam muitas teorias que nunca foram provadas, mas que são defendidas cegamente e divulgadas de forma irresponsável pelos seus autores. Por vezes, esta atitude de ligeireza revela falta de formação científica. Outras vezes, é uma atitude propositada para se obter dinheiro de forma fácil, pois é muito mais conveniente afirmar publicamente que - através da escrita - é possível saber-se tudo, do que afirmar quais são os seus limites. Como, em geral, os portugueses estão mal informados, deixam-se embalar nesse discurso, acabando depois por constatar que a realidade é outra, ficando com uma ideia negativa da disciplina, quando deveriam - isso sim - ficar com uma ideia negativa de quem a usa de forma irresponsável. Essa imagem negativa, comum a muita da comunidade científica (que está um pouco melhor informada), acaba por prejudicar as oportunidades dadas a quem procura dedicar-se à investigação de forma correcta e séria, tendo consciência de que a escrita é um material de estudo com vantagens, mas também com desvantagens em relação a outros. 

Em suma, fazer afirmações de grande impacto sobre o alcance da escrita como método de psicodiagnóstico é muito fácil, pois sabe-se que não existirá verificação das afirmações. Quem o faz levianamente procura geralmente atrair a atenção pública e servir-se das pessoas mais ingénuas para obter algum rendimento. Enquanto não existir investigação de fundo sobre a escrita dos portugueses e enquanto a generalidade da sociedade não estiver bem informada, continuarão a ser feitas muitas afirmações disparatadas para proveito próprio.

 

 

 

É possível determinar pela escrita se alguém em especial é honesto?

Não. A escrita não só não pode determinar factos, como não permite senão ter uma ideia vaga dos fundamentos morais de cada pessoa. A escrita permite diagnosticar tendências, predisposições e posturas. Um exemplo muito simples pode explicar o que isto significa: um homem que, através da escrita, seja avaliado como agressivo, pode utilizar essa agressividade para o bem – e aí será algo de positivo – ou para o mal. Através da escrita não é possível saber-se como se exteriorizam as tendências em concreto, embora se possa ficar com uma ideia mais ou menos vaga, caso a conjugação de indícios for muito forte num mesmo sentido.

 

 

 

É possível prever o futuro de uma pessoa através da escrita?

Não, de modo algum, como aliás não é possível prever por qualquer outro método.

 

 

 

É possível fazer orientação vocacional através do estudo da minha escrita?

Depende da idade. A partir do fim da adolescência, ou seja, quando a personalidade está já relativamente formada, é possível. Quanto mais novo for o adolescente, mais difícil isso se torna, sem o auxílio de outros métodos, como os testes de desenho, a entrevista e outros testes. No caso de crianças, fazer orientação vocacional através da escrita é impossível, como, aliás, será através de outros métodos. Mais do que na orientação vocacional, a escrita é útil na orientação profissional, ou seja, na escolha de uma profissão em concreto com base numa área de estudo previamente seleccionada.

 

 

 

É possível saber se tenho talento artístico através do estudo da minha escrita?

É extremamente difícil avaliar talento, mas pode ser avaliada a criatividade, a imaginação, a capacidade de identificação afectiva com os outros e mais aspectos que influem numa actividade artística bem sucedida. Não basta ter talento nem sequer condições materiais. É preciso que a personalidade possua estrutura para colocar esse talento em acção.

 

 

 

Quando um especialista faz um estudo sobre a minha escrita está a invadir a minha intimidade? Até que ponto ele poderá descobrir aquilo que eu não quero que descubra?

Através da escrita não se pode descobrir tudo sobre uma pessoa. Em termos de intimidade, esta ficará sempre salvaguardada, por duas razões:

1 – porque um especialista está obrigado, deontologicamente, a não passar informações delicadas a terceiros. Tudo o que diagnosticar na escrita de alguém deve guardar apenas para si ou passar para a própria pessoa que escreveu, caso esta solicite expressamente tal serviço.

2 – os factos não podem ser diagnosticados pela escrita. Assim, tomemos a sexualidade por exemplo: pode ser diagnosticada imaginação, energia (libido), grau de sensibilidade, e vários outros aspectos que têm influência directa na vida sexual, mas não é possível saber-se como todos estes aspectos se manifestam em concreto, porque a vida sexual está condicionada por muitos outros factores, que não são diagnosticáveis pela escrita. Para além do mais, pela escrita não é possível saber-se quais os gostos concretos de uma pessoa.

 

 

 

Tem-se falado tanto nos últimos anos sobre pedofilia e eu gostava de saber se é possível descobrir um pedófilo pela escrita.

Não é possível sabê-lo com segurança. Por mais que a escrita indicie imaturidade afectiva e todo o tipo de indícios de bloqueios em termos de sexualidade, não é possível determinar em que isso resultará no concreto. Porém, a escrita pode ajudar a consolidar um melhor conhecimento sobre a personalidade de suspeitos de pedofilia e, caso fosse feita investigação séria e aprofundada sobre a escrita de comprovados pedófilos, poderia constituir-se um perfil típico de escrita associada a essa grave disfunção. Mesmo assim, a escrita nada prova quanto a esse crime. Pode, porém, servir como importante meio de prova adicional relativamente às vítimas, caso sejam maiores de 10/11 anos e seja possível encontrar amostras manuscritas, quer do período anterior aos abusos, quer do período em que duraram os abusos. Pode ser determinado pela escrita se houve situação traumática e quando tal sucedeu, mas essa possibilidade não pode chegar ao ponto de identificar qual foi a situação em concreto.

 

 

 

Tenho actualmente em tribunal um processo, no qual está em causa uma assinatura. A outra parte alega ser falsa, muita embora eu saiba que é verdadeira, até porque ela foi feita na minha presença. Contudo, o exame pericial feito pelo Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária não só foi inconclusivo como pendeu mesmo para a falsidade da assinatura. Significa isto que nem sempre é possível determinar a veracidade de uma assinatura?

Na esmagadora maioria dos casos, é perfeitamente possível provar-se em tribunal a autografia (veracidade) ou a falsificação de textos manuscritos e assinaturas. Esta possibilidade é muito elevada sobretudo nos casos em que a pessoa em causa ainda é viva e não é muito idosa (podendo ser chamada a fazer autógrafos para comparação, em presença do juiz), assim como nos casos em que exista o original do documento contestado. Porém, de acordo como o que se tem visto suceder nos últimos anos, os exames periciais do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária não têm a Psicologia da Escrita como base, mas apenas uma comparação formal dos grafismos. Deste modo – nos casos em que existam algumas diferenças formais entre o documento contestado e os documentos fornecidos para comparação – mesmo que estas diferenças formais sejam facilmente explicáveis pelo tipo de gesto global e por outras questões psicológicas, as perícias do Laboratório de Polícia Científica da Polícia acabam por redundar em resultados inconclusivos, prejudicando sempre quem precisa de fazer prova. Para evitar este problema e garantir que seja feita justiça, deve ser pedida ao tribunal uma contra-peritagem, desta feita realizada por um especialista independente e baseada em métodos psicológicos.

Se tiver a infelicidade de voltar a ver-se envolvido num outro processo judicial em que é necessária a perícia sobre assinaturas, sugira ao seu advogado que seja feito logo de início um requerimento ao tribunal pedindo a nomeação de um perito independente no processo. Deste modo, poupará muito tempo e evitará eventuais dissabores no caso da análise à escrita ser mais complexa que o habitual, já que o Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária nem sempre corresponde como devia. Não se trata de uma questão de incompetência do referido Laboratório, mas de uma questão de fragilidade de formação, que pode ser fatal em muitos casos.

 

 

 

O Curso de Introdução à Psicologia da Escrita irá alguma vez ser realizado em Lisboa?

Esta questão tem sido insistentemente colocada nos últimos anos, uma vez que o Curso de Introdução à Psicologia da Escrita desenvolve-se geralmente ao longo de nove semanas, o que inibe a sua frequência por parte de pessoas que vivam longe do Porto.

O Curso de Introdução à Psicologia da Escrita é ministrado todos os anos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porém, em casos excepcionais, este curso poderá realizar-se fora do Porto, desde que a convite de uma instituição credível (universidade, instituto ou fundação). Tal já sucedeu no Instituto Politécnico de Tomar e no ISLA de Leiria.

Nos últimos anos foi considerada a hipótese de realizar no Porto um curso em versão concentrada, de modo a permitir a participação por parte de interessados residentes em outras zonas do país. A primeira versão concentrada deste curso foi realizada em Março de 2006. Procuraremos manter esta versão no futuro, alternando com versões em horário pós-laboral.

 

 

 

Sou advogado e preciso que se analise a escrita de duas cartas apresentadas em tribunal pelo advogado da parte contrária. A pessoa que escreveu essas cartas sofre de uma doença psiquiátrica grave, que levou mesmo a que fosse recentemente declarada incapaz. Porém, as duas cartas não estão datadas e, sabendo-se já que não são falsas, falta saber se quando foram escritas já a pessoa não tinha bem noção do que fazia. É possível saber-se isso pelo tipo de escrita?

Por princípio, é possível fazer-se através da escrita a avaliação do estado psiquiátrico de alguém numa determinada altura, o que é útil nos casos em que não haja relatórios de psiquiatria dessa época. Porém, em termos judiciais, pode ser complexo para um perito em Psicologia da Escrita defender a sua posição, porque as questões da psiquiatria entram já no foro médico. Assim, terá de recorrer a um perito com dupla formação, sendo quase certo que não o encontrará em Portugal. Porém, é possível encontrar em Espanha alguém com o perfil adequado para elaborar uma perícia desse género.

 

 

 

Porque razão não existem em Portugal licenciaturas em Psicologia da Escrita?

Sobretudo porque não existem suficientes professores com o grau de mestre e de doutor que façam investigação sobre o tema e que estejam aptos a leccionar matérias sobre o mesmo assunto. Por outro lado, até agora, nenhuma instituição de ensino superior portuguesa se mostrou interessada em promover uma licenciatura do género, mesmo que recorrendo a professores não portugueses - o que é compreensível, dado que as licenciaturas e pós-graduações nesta área são ainda muito recentes na Europa. A médio prazo não se prevê que a situação melhore, dada a tendência actual de restringir o surgimento de novas áreas curriculares no 1º ciclo de estudos do ensino superior, no âmbito do Processo de Bolonha.

 

 

 

Porque não há mais gente a estudar este tema em Portugal?

Porque têm referências erróneas sobre o que é a Psicologia da Escrita e qual a sua utilidade. Geralmente, as pessoas que frequentam o Curso de Introdução à Psicologia da Escrita na Faculdade de Letras da Universidade do Porto já escolheram uma profissão e, mesmo que estejam dispostas a investir apenas na Psicologia da Escrita para o futuro, sabem que não o podem fazer facilmente sem sair de Portugal durante alguns anos.

 

 

 

Quais as aplicações mais usadas da Psicologia da Escrita?

Em Portugal, a escrita é usada sobretudo para estudos de selecção de quadros empresariais e para a criminologia, embora na área criminal a maior parte dos estudos não tenha uma base psicológica, sendo sobretudo peritagens técnicas (como já foi referido noutra resposta). Estas peritagens, porém, são muito mais fiáveis se realizadas por quem possui formação em Psicologia da Escrita, permitindo geralmente ir mais longe do que a mera comparação formal.

Na Europa, usa-se também bastante a escrita como ferramenta de apoio na Psicologia clínica e mesmo em casos de disgrafia (quando é necessário proceder a uma reeducação da escrita). Também se usa noutras áreas, como se pode ver em aplicações.

 

 

 

Sou psicoterapeuta brasileira, mas fiz também alguns cursos básicos sobre o estudo psicológico da escrita na área da selecção de pessoal, nos quais foi passada a informação de que o candidato deveria escrever pelo menos duas páginas (só frentes) e que deveríamos entregar-lhe de três a cinco folhas para que ele pudesse escrever. Porém, hoje constato que alguns técnicos desta área pedem somente uma página com, pelo menos, 15 ou 20 linhas. Estará certo? Como pode haver uma avaliação correcta se não há material suficiente?

Por outro lado, nos ditos cursos, nós éramos ensinados a entregar as folhas e o candidato escrevia com as mesmas umas em cima das outras. Porém, alguns técnicos desta área pedem que a pessoa escreva na folha em contacto directo com a mesa, não podendo ficar em cima de outra folha. Qual é o mais correcto?

Quanto à primeira questão, o ideal é ter as referidas duas folhas, ou mais. Porém, ao nível das empresas, nem sempre o que é ideal tem aplicabilidade, sobretudo quando os textos são redigidos pelos candidatos sem a presença do especialista que os vai estudar (o que sucede sistematicamente em Portugal). Contudo, também é verdade que os estudos que se fazem em Portugal para selecção de pessoal são quase sempre para quadros superiores e forçosamente complementados com outros testes psicológicos, razão pela qual não é assim tão crucial a limitação de existir pouco material manuscrito. Mesmo assim, para alguns dos candidatos, por vezes é necessário pedir mais material escrito à empresa que está a tratar do processo de selecção.

Quanto ao escrever sobre a mesa ou sobre papéis, o meio termo é geralmente aconselhado. Se for sobre uma mesa muito dura, as nuances da pressão do traço são mais difíceis de avaliar. Em contrapartida, se for sobre um caderno de muitas folhas apoiado num suporte pouco duro, a avaliação da pressão pode também não ser bem feita, sobretudo se não se conhecer o contexto em que foi escrita essa amostra, uma vez que não existem geralmente amostras para contraste no âmbito de processos de selecção. Assim, caso as amostras sejam feitas todas no mesmo sítio, convém sobretudo que o suporte seja igual para todos os candidatos (não muito duro e não muito mole), de modo a que a comparação entre a escrita dos vários candidatos seja mais fácil. Apesar de tudo, esta é uma questão menor, sobretudo tendo em conta que o estudo da escrita, pelo menos em Portugal, não é geralmente o único método de diagnóstico para a avaliação de perfis de candidatos e quase só se usa para quadros superiores.

 

 

 

Sou gestor de uma empresa de equipamentos para o lar, a qual possui várias lojas na região de Lisboa, nomeadamente em alguns centros comerciais. Recentemente, foi descoberto que – numa das lojas – alguém tinha inventado saídas de caixa que não existiam, provavelmente para se apropriar dessas quantias. Como nessa loja fazem turnos vários funcionários, não tenho forma de apurar qual deles terá alterado as contas, a não ser que recorra a um estudo sobre a escrita destes vários funcionários, em comparação com o documento que foi forjado. A minha pergunta é a seguinte: como pretendo que este assunto não vá terminar em tribunal, mas antes que se resolva rapidamente e com custos mínimos para a empresa, gostaria de saber se é possível obter um relatório suficientemente fundamentado e demonstrativo, mesmo se lido por um leigo, de modo a que eu possa confrontar a pessoa que terá falsificado as contas com o dito relatório e levar a que seja a própria pessoa a confessar o que fez, perante a evidência do relatório.

Sim, é perfeitamente viável seguir esse procedimento, desde que faculte para exame comparativo suficientes manuscritos dos vários funcionários suspeitos, de modo a ser determinado qual deles desviou as verbas em proveito próprio. O relatório a efectuar pode depois ser elaborado com uma linguagem acessível e uma demonstração visual, de modo a que a pessoa que cometeu esse crime o leia e imediatamente se aperceba que foi desmascarada. Sentindo-se "encurralada", mais facilmente essa pessoa assumirá a culpa, resolvendo-se toda a questão internamente e sem necessidade de recorrer à – quase sempre ineficiente e muito demorada – justiça.

 

 

 

Sou estudante universitária em Ciências da Educação, no Brasil e estou realizando uma pesquisa a respeito do "significado dos desenhos das crianças entre os 12 e os 14 anos". Todavia, tenho dificuldade em encontrar materiais a respeito desse tema...

Também em Portugal praticamente nada existe de credível e de substancial publicado sobre este assunto, que é muito interessante. Contudo, está prevista dentro de alguns anos a publicação de um livro sobre alguns testes de desenho aplicados a pré-adolescentes e a adolescentes.

 

 

 

Vi há dias na RTP um programa em que alguns autógrafos de jogadores de futebol eram analisados por uma psicóloga. Como resido em Caparide e no rodapé passava o sítio da Internet da dita psicóloga dizendo que o mesmo era aqui bem perto, fiquei curiosa e resolvi consultar. Ao consultá-lo nada lá encontrei sobre esse assunto. Fiquei desiludida e intrigada. Gostava de saber se é alguma antiga aluna do Professor e se tem credibilidade (...)

Penso que a psicóloga em causa não se trata de uma antiga aluna. Uma pessoa da minha confiança que também viu o referido programa passou-me nesse mesmo dia o endereço da página da Internet. Consultei-o de seguida, uma vez que gosto de estar ao corrente de quem – em Portugal – se dedica ao estudo da escrita como gesto gráfico. Contudo, como diz, nada ali alude à escrita como método projectivo. Perante isto, a dúvida que coloca sobre a credibilidade é pertinente. Nestes casos, convém ser sobretudo muito prudente e estar atento aos detalhes. Só o facto de surgir num programa televisivo a tecer considerações sobre assinaturas que não estão devidamente contextualizadas é cientificamente muito discutível...

 

 

 

Gostaria de saber algumas informações relativamente ao “Perfil de Personalidade”. Através de alguma pesquisa na Internet, encontrei o seu website e achei interessante o facto de se poder fazer um teste de personalidade. A questão é que o teste seria para o meu namorado, mas preferia que ele não soubesse. Pode parecer um pouco estranho, mas acho que ao conhecer o seu perfil, talvez consiga perceber quem realmente tenho do meu lado, se ele é uma pessoa influenciável e se haverá alguma possibilidade de traição. A procura pela verdade é o meu objectivo, daí a necessidade de algumas provas de confiança. Acha que o estudo de um perfil me dará estes resultados? Terá ele de saber que está a ser feito esse teste?

Está correcta quando afirma que "ao conhecer o seu perfil, talvez consiga perceber quem realmente tenho do meu lado". Pode-se determinar com certa segurança "se ele é uma pessoa influenciável". Porém, quanto a determinar se "haverá alguma possibilidade de traição", isso não depende tanto da personalidade do seu namorado, mas sobretudo de diversos factores circunstanciais, como por exemplo (e logo à partida), ele gostar ou não muito de si, entre outros factores que não são passíveis de diagnóstico através da expressão gráfica. É certo que a personalidade tem um peso muito forte na questão da fidelidade, em especial o nível de maturidade afectiva. Contudo, não é possível determinar o grau de "fidelidade" de alguém através da escrita. Sobretudo não é possível determinar a passagem ao acto, já que muita da infidelidade é latente mas só se manifesta em actos mais tarde (ou nunca se manifesta, conforme as circunstâncias). Também não é possível diagnosticar pela escrita se uma pessoa é "de confiança". Apenas é possível avaliar a sua personalidade em termos de tendências. Em suma, todos os aspectos éticos/morais de um indivíduo não são passíveis de diagnóstico usando-se a escrita ou o desenho. O mesmo se passa com a previsão de factos. Apenas é possível diagnosticar tendências e predisposições, o que já é suficientemente importante, sobretudo quando duas pessoas estão enamoradas e, em face disso, têm dificuldade em ver as coisas de forma objectiva e fria. Mesmo assim, para que o diagnóstico seja fiável, convém que reuna material gráfico suficiente para estudo, de preferência amostras assinadas (pelo menos uma ou duas), amostras com várias linhas escritas e feitas em diferentes situações ou épocas. Todo o material será devolvido após a elaboração do relatório, o qual está abrangido por sigilo profissional. Deontologicamente, é aceitável que peça este estudo sem que o mesmo seja do conhecimento do seu namorado, uma vez que o objectivo não é prejudicá-lo. Porém, deve ter em conta um pormenor muito importante: será responsável pelo uso que der ao estudo de personalidade. Desaconselho, pois, que transmita o conteúdo do mesmo a terceiros.

 

 

 

Hoje em dia, o ADN é cada vez mais utilizado para identificar pessoas, assim como são usados outros métodos com base biotecnológica, os quais dispensam o uso da assinatura. Uma vez que há uma progressiva diminuição das situações em que a nossa escrita é utilizada no dia-a-dia, muitas vezes resumindo-se a pequenos apontamentos e a algumas assinaturas, valerá a pena continuar a estudar a escrita?

Como já respondi mais acima, a escrita - mesmo que ligeiramente entorpecida na idade adulta por quem não tem hábito de escrever - é algo que não só não se desaprende, como evolui formalmente na sua quase totalidade durante a adolescência, precisamente o período em que qualquer português escolarizado tem de escrever bastante. Desse modo, em termos forenses e psicológicos, a escrita possui sempre algumas vantagens face ao ADN e às impressões digitais (entre outros métodos biotecnológicos): todos estes métodos revelam a identidade única e irrepetível, mas só a escrita pode fornecer dados sobre a evolução psicológica, atitude social, tendências que não estejam directamente ligadas a uma base genética, etc.

 

 

 

Em que situações devo recorrer a um especialista em Psicologia da Escrita?

Sempre que seja útil e necessário. São muitas as situações hipotéticas. Eis alguns exemplos: sempre que precise de avançar numa pareceria empresarial com alguém que mal conhece e no(a) qual tem pouca confiança; sempre que pretenda casar ou iniciar uma união de facto; sempre que suspeite que algum documento importante para a sua vida é falso; sempre que queira perceber melhor uma pessoa difícil com quem é obrigado(a) a lidar ou a viver, sem com isso a alarmar; sempre que um filho adolescente entra numa fase perturbante, sem que se perceba a razão; sempre que haja dúvidas sobre qual a profissão a escolher; enfim, sempre que pretenda estar mais seguro(a) sobre os seus e sobre o carácter das pessoas que o(a) rodeiam. 

 

 

 

A minha letra é horrível porque eu uso sempre um computador. Dá para estudar a minha letra na mesma?

Tecnicamente, não existem letras horríveis, uma vez que essa é uma apreciação estética muito relativa. De qualquer modo, supondo que se refere a uma escrita muito irregular, esse fenómeno gráfico não tem certamente origem directa no uso do computador. Quantas pessoas usam muito o computador e têm a sua letra extremamente regular? É verdade que o computador favorece menos investimento de energia na atenção ao que escrevemos, pois estamos seguros que esses manuscritos ficarão só para nosso uso e o computador permitirá colocar esse texto de forma totalmente legível perante os outros. Mesmo assim, tal fenómeno gráfico está também intimamente ligado à época cada vez mais individualista e relativista em que vivemos. Ora, é sempre em função do contexto cultural e social que a escrita se estuda. Por isso, a sua "letra" pode ser estudada do mesmo modo que as outras.

 

 

 

É verdade que um profissional da Psicologia da Escrita está sempre a procurar extrair dados de personalidade a partir da escrita de qualquer pessoa, mesmo em situações fora do trabalho, como no café, em reuniões, etc.?

Não podendo responder por todos, digo ainda assim que a resposta é negativa na esmagadora maioria dos casos. De facto, alguém que exerce consultoria em Psicologia da Escrita limita-se por norma a elaborar os estudos que lhe são solicitados. No entanto, em casos excepcionais, esse especialista pode procurar tirar conclusões para si próprio, face a uma pessoa que esteja a escrever à sua frente ou da qual possua um manuscrito. Eis duas situações hipótéticas, embora raras: a) quando esse especialista pretende saber melhor quem é uma certa pessoa que mal acabou de conhecer e com a qual não sabe muito bem como lidar, dadas as suas atitudes estranhas; b) quando esse especialista, sendo solteiro(a) por exemplo, pretende saber mais detalhes sobre a personalidade de um homem/mulher que considera interessante antes de avançar para um convite formal de modo a conhecerem-se melhor.

 

 

 

Ouvi dizer que existem programas de computador próprios para elaborar perfis através da escrita. De facto, há uns anos, vi num centro comercial em Espanha uma máquina em que escrevendo uma palavra saía o resultado em forma de características de personalidade, mas aquilo pareceu-me muito primitivo e aleatório. Até que ponto já evoluiu a tecnologia neste aspecto?

Dentro do estudo da escrita, existem várias "escolas" (como a Grafometria e a Grafoanálise) que usam programas informáticos, embora os aspectos gráficos sejam previamente avaliados e medidos e só depois introduzidos no programa, de forma a que este calcule médias e estabeleça conclusões parciais com base em esquemas tipológicos. Em nossa opinião, este método pode facilitar a vida ao especialista, mas também pode ser extremamente redutor, uma vez que todos os casos são diferentes e por vezes há que relacionar vários aspectos gráficos incomuns, para os quais os programas criados não possuem tipologias. Pior ainda é a fiabilidade de programas informáticos que não requerem qualquer intervenção do especialista (ainda que previamente engendrados por supostos especialistas): os resultados tendem a ser muito superficiais e com grande margem de erro, sobretudo quando tomam como base a imagem gráfica de um texto manuscrito e não podem - por isso - avaliar a pressão, a velocidade do gesto à medida que o texto vai sendo colocado no papel, etc.

 

 

 

É verdade que existem laboratórios internacionais de polícia criminal que não possuem nos seus quadros especialistas com formação em Psicologia da Escrita, apesar de realizarem perícias sobre documentos manuscritos?

Sim, é verdade. Em primeiro lugar, diga-se que alguns exames a documentos manuscritos não são feitos à escrita manual, como é o caso da análise a rasuras no papel, da análise química das tintas de uma esferográfica, etc. Quanto à perícia à escrita propriamente dita, existem hoje sobretudo duas correntes ou escolas: a) a escola forense clássica, baseada em métodos antropométricos, os quais têm a sua origem sobretudo na França do último quartel do século XIX; b) a escola psicológica (ou grafológica). Basicamente, a escola forense clássica limita-se a comparar, utilizando os métodos de ampliação considerados adequados a cada caso. Quanto à escola psicológica, para além de comparar procurar perceber. Em traços largos, isto significa que a perícia forense clássica de base antropométrica é um tipo de perícia algo limitada, que só atinge elevado grau de certeza nos casos mais fáceis. A vantagem de uma perícia com base psicológica é poder levar a conclusões fundamentadas em casos mais complexos, uma vez que alia o método comparativo com um método explicativo. Por essa razão, cada vez mais as polícias criminais e os laboratórios associados procuram peritos com dupla formação. Infelizmente, em Portugal isso ainda não sucede.

 

 

 

É possível corrigir a disgrafia recorrendo apenas a um especialista no estudo da escrita?

A resposta a esta pergunta não é fácil. Á partida é possível, mas há que ter em atenção duas coisas: a) Não existe unanimidade quanto às causas da disgrafia, não sendo sequer fácil determinar se ela existe ou não, uma vez que subsistem muitos meios termos. b) Um mero especialista no estudo da escrita pode não ter a formação complementar adequada para lidar com a disgrafia e, sabendo-se que muitas vezes a disgrafia tem profundas causas psicológicas, é aconselhável que esta seja abordada por um psicólogo especializado. Ou seja, a disgrafia não é fácil de diagnosticar em muitas situações e deve ser analisada caso a caso. O grau de perturbação da escrita tem de ser avaliado em função do sexo e da idade, assim como de outros factores. Por vezes, aquilo que parece uma escrita perturbada não é mais do que reflexo de uma atitude propositada, ainda que em parte inconsciente. Falar de disgrafia acima dos 14 anos torna-se ainda mais difícil e, se vista na óptica da eficiência da compreensão das mensagens escritas, torna-se quase impossível corrigi-la com reeducação da escrita, uma vez que em termos sociais a eficácia na transmissão de mensagens num documento manuscrito é extremamente desvalorizada. Muito mais importante do que rotular a escrita de uma criança ou de um pré-adolescente como disgráfica, é tentar perceber em cada caso porque é que isso sucede. Em função disso se decidirá o que fazer: se é necessário recorrer a uma reeducação, se é necessário recorrer a um psicólogo clínico ou se simplesmente devemos estar alertas, sem tomar uma iniciativa em concreto.

 

 

 

Na última entrevista para um emprego, tudo correu bem ao meu namorado. Ele tinha quase a certeza que o lugar seria dele. Estranhamente, nunca mais lhe telefonaram (...). Suspeito que a letra dele talvez o tenha eliminado. Será assim?

A letra não elimina. A letra é um produto humano e, como tal, é o produtor que é preterido, em função do seu produto. É precisamente isso que sucede através de todos os restantes métodos de selecção de pessoal: o Curriculum Vitae, o nível de experiência, os testes psicotécnicos, até mesmo a forma de se vestir e de se apresentar.

 

 

 

Li algures que, no Brasil, pessoas que deixam de ser contratadas com base na análise da escrita, ao descobrirem a razão do "fracasso" procuram grafólogos para os ajudarem a ajustar a letra às premissas da grafologia (obviamente pagando caro por isso) e passam depois nos testes de grafologia que a empresa aplica. Isto é mesmo verdade?

Não sei se este fenómeno existe mesmo no Brasil. Porém, se existir, é um completo disparate e algo de muito grave. Quem se submete a esse procedimento de "ajustamento da letra" (seja lá o que isso for) ignora que tal "ajustamento" não só não serve para nada como só o vai prejudicar. De facto, numa futura candidatura a um emprego em que a escrita seja utilizada como método de diagnóstico, quem apresentar uma letra "ajustada" irá fazê-la de forma menos espontânea e mais caricatural, o que poderá levar a que o diagnóstico seja feito tomando essa circunstância forçada como um estado permanente, prejudicando sempre a avaliação. Quem faz crer aos candidatos a emprego que o referido "ajustamento" será útil, não sabe o que diz ou não é uma pessoa séria. Se em alguma situação o tal "ajustamento" teve como resultado a aprovação da candidatura a um emprego para o qual a pessoa anteriormente não tinha sida aprovada, então é porque o profissional que realizou a avaliação para a dita empresa não passa de um incompetente, de um charlatão ou de um oportunista. 

 

 

 

Li na Internet que já se começa a especular em alguns estados norte-americanos a possibilidade de processar por difamação as empresas que usam a escrita para contratações e avaliações, com base em leis contra a discriminação. É que não havendo base científica sólida, pode ser considerado discriminação deixar de contratar ou promover alguém por falta de habilidade motora para produzir uma letra agradável ao olhar dos grafólogos.

Não é verdade que não exista base científica sólida. Uma abordagem psicológica à escrita é tão cientificamente sólida como a própria Psicologia. É verdade, sim, que a prática do estudo da escrita raramente é cientificamente sólida nos Estados Unidos e, desse modo, os resultados resultam mais em especulações do que em outra coisa. Se os EUA não devem ser exemplo para nada relativamente ao estudo da escrita, muito menos o devem ser relativamente a sensatez em questões legais, uma vez que – como é sabido – se vai ao exagero de processar judicialmente por tudo e por nada. Se seguíssemos esse raciocínio radical de alguns estados norte-americanos, qualquer outro método de selecção utilizado pelas empresas poderia ser visado, inclusive os métodos psicológicos considerados mais credíveis, uma vez que a sua credibilidade é contestada por uma considerável franja dos próprios psicólogos. Aliás, alguns psicólogos afirmam que até a Psicologia mais académica não é, nem poderá ser, absolutamente científica. Por outro lado, o princípio da não discriminação, se usado sem sensatez, poderia chegar ao cúmulo de virem a ser injustamente processadas empresas que se basearam na apresentação do candidato em entrevista para não o seleccionar. Por exemplo: para uma função com forte componente de relacionamento com novos clientes, não será importante o modo como uma pessoa se veste e se apresenta aos outros? Não poderá a empresa escolher os candidatos em função do perfil mais adequado à função? Escolher um candidato é sempre um acto de discriminação positiva face aos demais candidatos que não foram escolhidos. Não há forma de fugir a isto.

Relativamente a "deixar de contratar ou promover alguém por falta de habilidade motora para produzir uma letra agradável", lembro o seguinte: a) Na avaliação da escrita de um candidato, não é uma questão estética subjectiva que está em causa, mas sim indícios gráficos que permitem, em conjunto, tirar conclusões sobre aspectos e tendências da personalidade. Ou seja, não é por a escrita de alguém ser considerada "feia" que essa pessoa automaticamente é preterida numa candidatura a um emprego. Aliás, se assim fosse, as nossas empresas estariam cheias de quadros superiores do sexo feminino, uma vez que a escrita das mulheres é estatisticamente mais agradável à vista do que a dos homens. b) Em alguns casos, o facto da escrita ser agradável ou não pode, de facto, vir a decidir quem é contratado, mas esse critério não é um critério psicológico e só é usado por "grafólogos" incompetentes ou por leigos em matéria do estudo psicológico da escrita. Aliás, há casos em que até se compreende o critério subjectivo da beleza da escrita, quando esse critério é usado por leigos na matéria: por exemplo, um empresário que contrata uma secretária e quer certificar-se que sua a letra é clara e legível. c) À partida, todos temos a mesma capacidade de produzir uma letra agradável e se não o fazemos é porque, de forma mais ou menos inconsciente, optámos por seguir esse caminho. Por isso, não se pode falar em discriminação por incapacidade de escrever bonito, excepto em casos menos comuns de patologias somáticas que afectem o acto de escrever. Estes casos não só são pouco comuns, como em termos de selecção de pessoal são extremamente raros, pois evidenciam-se sobretudo em idades mais avançadas, enquanto que a selecção de pessoal tende a ser feita numa faixa etária entre os 25 e os 40 anos. Mesmo assim, sempre que esses casos sucedam, quem vai estudar a escrita terá (em princípio) acesso aos dados médicos e avaliará em função dessas circunstâncias.

 

 

 

Não será necessário verificar de forma mais aprofundada e em maior escala se realmente existe uma ligação entre a escrita e a personalidade de alguém?

A verificação de que essa ligação existe já foi feita de muitas formas e há muito tempo atrás, embora seja verdade que ao nível dos estudos de personalidade elaborados existe muitas vezes pouco interesse por parte de quem os faz em confrontar os resultados com a realidade. Outras vezes, o interesse existe, mas não há condições para o concretizar. Por essa razão defendemos que a Psicologia da Escrita deve ser entendida como ramo da Psicologia e, consequentemente, os seus resultados devem ir sendo confrontados com uma prática clínica.

 

 

 

Em 1989, Brat Neter (The predictive validity of graphological inferences: A meta-analytic approach) publicou uma meta-análise de 17 estudos grafológicos, que foram seleccionados com base no seguinte critério: conter dados suficientes que permitissem calcular um coeficiente de correlação das previsões dos grafólogos sobre sucesso profissional dos analisados e que este sucesso profissional fosse verificado através de algum resultado externo, tal como reconhecimento pela excelência na profissão ou sucesso em programas de treinamento. Foram comparadas as performances de grafólogos, de pessoas leigas no assunto e de psicólogos. O resultado foi desanimador: os grafólogos não se saíram melhor do que os leigos e ainda ficaram atrás dos psicólogos. Foi, ainda, comparado o desempenho dos grafólogos frente a amostras de caligrafia "neutras", onde não havia nenhuma informação biográfica do escritor, e o desempenho deles caiu vertiginosamente, o que leva a acreditar que muitas das informações são tiradas do texto e não da letra em si. No livro de 1992 The Write Stuff: Evaluations of Graphology - The Study of Handwriting Analysis, Geoffrey Dean também realizou uma meta-análise de mais de 200 estudos em diversas línguas, seleccionados de acordo com os mesmos critérios do estudo de Neter. As conclusões são as mesmas de Neter: os grafólogos falharam sistematicamente em prever performance, aptidões e personalidade. Dean apontou ainda interessantes correlações, por exemplo: os estudos com melhores metodologias e publicados em revistas científicas mais rigorosas no processo de revisão e selecção de artigos, na sua grande maioria eram desfavoráveis à grafologia. Anthony Freeman, editor do "Journal of Consciousness Studies", chama a atenção para o facto de que vêm de Israel a maioria dos estudos favoráveis à grafologia, o que pode ser compreendido em termos culturais, já que vários mitos judaicos estão relacionados ao poder da palavra escrita ou falada. Que comentários lhe suscita tudo isto?

Em primeiro lugar, estudar a escrita implica uma abordagem tão biológica e comportamental como as abordagens feitas pelas ciências biológicas e comportamentais, uma vez que a escrita é um produto humano mensurável e explicável. Quem não sabe o que é a escrita, obviamente que não é capaz de perceber porque razão se podem tirar conclusões a partir dela. As conclusões desses dois estudos norte-americanos evidenciam que os seus autores não sabem muito bem o que é a escrita.

Em segundo lugar, como já foi dito, o principal pressuposto desses estudos norte-americanos está incorrecto: não é totalmente possível com base na escrita fazer "previsões sobre sucesso profissional dos analisados", uma vez que isso depende muito de inúmeros factores circunstanciais não diagnosticáveis através da escrita, sendo que alguns desses factores nem sequer podem ser totalmente inferidos através de outros métodos. Ou seja, os autores dos referidos estudos pretenderam provar como falsa uma premissa que à partida se sabia ser falsa, embora tomando-a como pretensamente verdadeira. Porque o fizeram? Possivelmente para desmontarem e desmascararem a actividade profissional de alguns supostos "grafólogos" que fazem crer às empresas e à sociedade norte-americana em geral que tal premissa é verdadeira. Automaticamente, sem perceberem bem o que é a escrita e tomando a parte pelo todo, os autores extrapolaram de forma perigosa para as conclusões, razão pela qual todo o fundamento científico desses dois estudos me parece claramente falacioso.

Em terceiro lugar, o relativo grau de capacidade de previsão que é possível atingir através do estudo da personalidade através da escrita depende de variáveis fundamentais que não estão directamente acessíveis na escrita e que devem ser sempre disponibilizadas aquando de qualquer estudo que se pretenda credível (idade, sexo, habilitações, dados médicos sobre patologias que afectem a motricidade fina - quando aplicáveis, etc.). Aparentemente, os autores norte-americanos dos estudos acima referidos ignoraram este pressuposto fundamental.

Na prática, o que se fez nestes dois estudos norte-americanos foi comparar diferentes métodos de avaliação da personalidade em termos de eficácia da capacidade de previsão: o método empírico (ou seja, a opinião de leigos), métodos psicológicos e o uso da escrita. Ora, não nos esqueçamos que o uso da escrita é também um método psicológico. Por outro lado, os restantes métodos psicológicos usados para comparação não são descritos com rigor, apenas se sabendo que foram aplicados por psicólogos. Assim, vários psicólogos seleccionados para os dois estudos norte-americanos podem ter também usado a escrita sem que isso se saiba. Pior ainda: os vários psicólogos seleccionados terão certamente usado mais do que um método de avaliação. Tudo isto evidencia, desde logo, como os referidos estudos norte-americanos são cientificamente frágeis. De facto, é ilógica a comparação da fiabilidade de um conjunto de métodos psicológicos não claramente determinados face a um só método psicológico em concreto. Não está apenas em causa o facto desse conjunto de métodos estar pouco clarificado (tendo certamente variado de psicólogo para psicólogo). É que um conjunto de métodos tende a ser sempre mais fiável face a um método isolado que, ainda por cima, pode até estar contido também nesse conjunto de métodos. Por outro lado, se a capacidade de previsão se baseia muito em factos e em circunstâncias, à partida todos os métodos baseados na anamnese levam vantagem. Isto pode explicar porque é que até os leigos conseguiram prever melhor do que aqueles que usaram somente a escrita. Não nos esqueçamos que os psicólogos têm, para além da anamnese clínica, toda uma panóplia de métodos de diagnóstico à disposição, enquanto que a escrita é um método apenas e sem qualquer possibilidade de determinar os dados da anamnese. A escrita permite avaliar tendências e predisposições, mas é o confronto desta avaliação com os dados da anamnese que nos dá alguma capacidade de previsão. Quando esse confronto não existe, a escrita pode ficar em desvantagem face a métodos baseados na anamnese (como a Psicologia em geral e o próprio empirismo), o que não quer dizer que a escrita não possua outras vantagens como método de avaliação psicológica.

Mesmo que aceitássemos à partida a presunção de que os métodos usados para comparação com o estudo da escrita eram os mais indicados, a comparação resultaria sempre falaciosa se feita nos termos em que foi proposta nos dois estudos norte-americanos. De facto, retirando-se uma base fundamental de apoio ao método que usa a escrita (a anamnese), os resultados desse método têm de sair mais fracos face aos demais métodos.

Quem usa a escrita como método de psicodiagnóstico não deve presumir que é um "super-analista", que não precisa da Psicologia para nada e que lhe basta olhar para a escrita para saber tudo. Essa perspectiva é errada e absurda, ainda que muita gente que exerce actividade profissional na área passe essa ideia - ideia essa que depois é tomada como base para estudos que procuram a toda a força e de forma enviesada provar que não existe credibilidade científica na utilização da escrita como método de avaliação psicológica, quando essa falta de credibilidade está nesses mesmos estudos e nos pressupostos em que os mesmos se basearam, em função da prática superficial de supostos "grafólogos". Estudos como os dois acima referidos só têm como mérito provar o óbvio: que esses mesmos "grafólogos" seleccionados não têm credibilidade. Em contrapartida, ao confundirem o todo com as partes, esses estudos podem ser perniciosos para a comunidade científica, porque inibem pesquisa séria sobre o tema. É forçoso relembrar que ambos os estudos são norte-americanos. Ora, a julgar pelos indícios disponíveis, a generalidade dos "grafólogos" em causa evidencia formação e práticas muito duvidosas, o que infelizmente é comum nos Estados Unidos da América.

Não possuindo verdadeira cultura científica, os "grafólogos" pouco capazes não estão sequer interessados em promover o avanço e a credibilização da disciplina, não fazendo - pois - qualquer investigação sustentada e não podendo, pois, publicar nada em revistas científicas de qualidade. Já em Israel, a qualidade científica e profissional de quem se dedica ao estudo da escrita é, por norma, bastante superior à que se verifica nos Estados Unidos. Este facto facilmente pode explicar porque razão provenham de Israel estudos mais favoráveis à credibilidade do método de avaliação psicológica com base na escrita. Creio que não se trata de razões culturais. Aliás, se assim fosse, seria estranho que os tais estudos geralmente mais desfavoráveis fossem sobretudo norte-americanos, uma vez que a cultura judaica é base fundamental da cultura científica norte-americana.

Sou também desfavorável a essa "grafologia" descrita nos estudos norte-americanos. No entanto, não tenho dúvidas quanto ao princípio da sua cientificidade e até da sua credibilidade, se encarada numa perspectiva fundamentada e séria, tendo noção de que ainda há muita pesquisa a ser carreada para podermos atingir um nível razoável de fiabilidade. O já referido princípio de cientificidade permite-nos almejar esse patamar. Falta-nos ainda uma prática de investigação mais articulada e consistente. O livro "The write stuff" é bem conhecido no meio e, embora coloque em causa a credibilidade de muitos daqueles que exercem uma actividade profissional com base no estudo da escrita, não belisca o princípio de cientificidade da Psicologia Escrita. De facto, quem pretender provar a não cientificidade de alguma das possibilidades de estudo da escrita com fins psicológicos, perde - obviamente - o seu tempo se recorrer à desmontagem de premissas que são falsas à partida. Ou seja, livros como "The write stuff" são tão frágeis como são frágeis as premissas em que se basearam. Tal não significa que não devam surgir mais livros e artigos com uma abordagem cartesiana e crítica face aos princípios do estudo da personalidade através da escrita. Porém, seria bom que os autores destes livros e artigos tivessem o cuidado de se informar melhor, nomeadamente lendo a obra de Alfred Binet "Les révélations de l'écriture d'aprés un controle scientifique", de 1906 (exemplo pedagógico para todos os que pretendem saber até que ponto é útil a escrita como forma de psicodiagnóstico), escolhendo uma metodologia mais correcta, seleccionando profissionais mais capazes e clarificando à partida as regras do jogo de acordo com parâmetros científicos inquestionáveis. 

Tudo isto só reforça a ideia de que a Psicologia da Escrita é ainda uma ciência experimental, coexistindo profissionais de péssima capacidade com outros de elevada competência. A escolha de um profissional na área do estudo da escrita deve ser feita de forma criteriosa e prudente. A escolha de profissionais para estudos transdisciplinares deve seguir os mesmos critérios. 

 

 

 

Li algures que está cientificamente comprovado o facto de algumas doenças poderem ser identificadas através da escrita. A doença de Parkinson, por exemplo, logo no seu estado menos desenvolvido pode levar a uma escrita mais pequena, comprimida e lenta. Pessoas com a doença neurodegenerativa de Huntington escrevem com diferentes velocidades e aquelas apresentando demência têm uma escrita constantemente a alternar entre padrões acelerados e desacelerados, resultando num aspecto pictórico de aparência nervosa. Um outro exemplo: "Maneirismos ocorrem em esquizofrénicos, oligofrénicos e histéricos, e são caracterizados por gestos artificiais, ou linguagem e escrita rebuscada, com uso de preciosismo verbal, floreados estilísticos e caligráficos, etc.". Isto está mesmo correcto?

Não é inteiramente verdade que essas e outras doenças possam ser identificadas através da escrita, pois: a) é preciso ser médico para o fazer e, como tal, o diagnóstico não é estritamente baseado na escrita mas sim multidisciplinar; b) mesmo numa perspectiva multidisciplinar, a escrita não permite por si só fazer o diagnóstico de uma patologia médica, uma vez que qualquer diagnóstico tem de se basear numa conjugação de indícios e, na escrita, vários efeitos gráficos podem ter origens e causas diferentes. O confronto com a anamnese e com outros dados médicos é fundamental. Por exemplo, não é possível diagnosticar com segurança a esquizofrenia através da escrita. Na medicina, a escrita serve sobretudo para avaliar predisposições e confirmar diagnósticos já previamente elaborados, aferindo o grau de evolução da patologia.

 

 

 

Suspeito que muitas informações sobre uma pessoa podem ser tiradas dos textos em si. Efectivamente, apesar dos "grafólogos" negarem que utilizam tais pistas, nas entrevistas para emprego geralmente é pedida para análise uma carta de apresentação manuscrita, assim como para consultas individuais geralmente são utilizadas cartas pessoais.

Em primeiro lugar, é verdade que são usadas sobretudo cartas pessoais no estudo da escrita, mas a razão principal para que seja assim não tem nada a ver com a necessidade de tirar conclusões com base nos conteúdos. As cartas pessoais são mais espontâneas, embora mantendo um grau mínimo de ordenação espacial na ocupação da página, pelo que dão mais informação gráfica e informação gráfica mais fiável. Em segundo lugar, não se pode generalizar e afirmar que o conteúdo dos textos nunca é lido por quem usa a escrita como forma de diagnóstico. É verdade que há quem o afirme e até deve haver quem cumpra este preceito à risca. Porém, em nossa opinião,  todos os conteúdos que possam ser úteis, em casos mais complexos, não devem ser desperdiçados. Quem nunca lê os conteúdos de modo a fazer crer que deles não precisa porque é demasiado bom no que faz, envereda por uma atitude pobre face à busca do conhecimento científico. A mesma atitude pobre pode ser detectada também em quem afirma que não quer estudar a escrita porque as ferramentas que tem para fazer diagnóstico de personalidade já são suficientemente boas em todos os casos.

 

 

 

Estou fazendo um trabalho para a Faculdade de Psicologia que curso e se tiver algum material sobre Disgrafia ou Problemas de Aprendizagem da Escrita, favor me enviar. Fico desde já muito agradecida.

Comece por ver os trabalhos de Robert Olivaux, que são muito bons (em francês ou italiano).

 

 

 

Um dia ao terminar um exame, de um curso que estava a frequentar, este tinha algumas rasuras, que eu tinha feito durante as minhas respostas. Como não gostei de ver as folhas rasuradas com caneta, utilizei um corrector para tapar aquelas coisas feias que tinha no teste e pintei-as de branco. Como não era um exame de Faculdade mas sim um teste final desse outro curso, parti do princípio que não ficaria muito mal. A professora, ao receber o meu teste, olhou para ele e disse-me que "aquilo era reflexo da minha personalidade". Como já tenho ouvido falar sobre este assunto mas foi a primeira vez que mo disseram, fiquei deveras intrigado! O que quererá a professora dizer com isto? Será que existe uma relação entre o rasurar a folha de teste e a sua cobertura com corrector e a minha personalidade?

A sua professora de inglês tem toda a razão, embora pelo simples facto de colocar o corrector não seja possível perceber como é a personalidade, pois trata-se apenas de um indício entre muitos que podem e devem ser estudados e confrontados entre si através do todo da escrita. Colocar corrector até nem é dos indícios mais importantes que pode ser estudado.

 

 

 

É possível desenvolver (criar) através da psicologia da escrita um método para corrigir a caligrafia comum (no caso a "letra feia") de jovens e adultos sem utilizar os recursos, meios e regras utilizados na caligrafia clássica ou pelos métodos utilizados por calígrafos?

Sim. Contudo, há alguma coisa publicada que confunde reeducação da escrita com terapia através da escrita, sendo que esta última tem resultados muito duvidosos (eventualmente funcionando como placebo). É aconselhável a leitura de um pequeno livro em italiano (traduzido do francês pela AGI) de Robert Olivaux: "Disgrafie e reeducazione della scrittura".

 

 

 

Decidi contactá-lo por ter visto, na sua página, uma referência ao estudo de "Perfis de Personalidade" e à sua associação com a (dis)"Funcionalidade Familiar". O caso é o seguinte. Sou casado há 15 anos e há cerca de 3 iniciámos uma terapia conjugal que não levou a lado nenhum. Continuei a ser acompanhado por psicólogos cínicos desde então, mas a relação degrada-se. Perante isto, penso que me seria útil seguir outras abordagens no sentido de perceber melhor "o caso" de cada um de nós. Gostaria, pois, de obter um Perfil de Personalidade detalhado de ambos. Contudo, não conto com a disponibilidade da outra parte para o efeito. Deste modo, pode-me informar se: 1) Em termos éticos, há alguma objecção que possa ser colocada ao meu pedido; 2) Em termos práticos, isso impede a realização do trabalho.

Em resposta às suas duas questões, informo que não há – à partida – em termos éticos, objecção ao seu pedido, uma vez que se trata de um casal. Contudo, lembro que será responsável pelo uso que der aos resultados do relatório e que o mesmo nunca deverá ser utilizado para prejudicar terceiros. Em termos práticos, também não deve haver impedimento à realização do estudo, embora deva contactar-me previamente para que lhe dê indicações sobre o material gráfico a recolher.

 

 

 

De há uns tempos para cá, quando não estou a fazer nada, quando estou ao telefone ou à espera que uma página de Internet descarregue, inadvertidamente dou por mim a escrever a minha assinatura. Ao fim do dia, esteja eu em casa ou no trabalho, acabo por assinar seis, sete ou mais páginas. Tudo isto me intriga.

Esse fenómeno poderá ser considerado relativamente normal se for adolescente, mas já sai fora do comum se for adulto/a. No segundo caso, teria de ser encontrada uma explicação através de outros indícios ou da anamnese clínica.

 

 

   

Sou um recém-licenciado em (...) e estou a tentar concorrer para leccionar nas Forças Armadas. No concurso, vou ter que fazer testes de avaliação da minha personalidade. Como devo preparar-me para esses testes?

Esses testes de carácter psicológico não requerem qualquer preparação prévia pois, supondo que os mesmos são fiáveis e serão bem aplicados e interpretados, não se destinam a constatar quem melhor se preparou: ou se tem perfil ou não se tem. Ficam apenas dois conselhos para que os resultados dos testes se aproximem mais da realidade, seja ela qual for: a) sinceridade e um mínimo de espontaneidade nas respostas; b) uma boa respiração, de modo a oxigenar o cérebro e a atenuar o nervosismo.

 

 

Li num livro que, tal como a fotografia a reproduz as linhas do rosto, a alma é reflectida nos traços da "caligrafia", a qual demonstra perfeitamente os detalhes nítidos e característicos do indivíduo. Ora, melhorando a caligrafia, melhoraria o carácter? Pela sua experiência com a psicologia da escrita, é possível essa mudança do carácter da pessoa ao modificar a letra irregular e feia e obtendo uma escrita regular e bonita?

Não.

Como referi em outro tópico, a escrita é sobretudo um produto humano, resultante da conjugação de inúmeros e complexos factores. Um desses factores é também a impressão que a escrita – como produto gráfico – provoca em que escreve. Contudo, os efeitos desta impressão são ténues e sobretudo notados a médio/longo prazo, especialmente na puberdade e na adolescência, quando a escrita mais se transforma em cada indivíduo.

Em suma, a escrita é muitíssimo mais uma consequência do que uma causa e mesmo quando a escrita também funciona como causa, foi previamente uma consequência.

Deste modo, induzir alterações na escrita para obter a inerente transformação no carácter é um princípio simplista, extremamente discutível e até mesmo perigoso, sobretudo porque envolve expectativas muito elevadas por parte de quem se submete a uma terapia deste género, as quais não serão satisfeitas, a não ser talvez como um placebo. Assim, os efeitos de uma terapia deste género podem ser imprevisíveis e até nefastos, não porque a terapia dê resultados, mas precisamente porque não os dá. Por outro lado, é necessário ter em conta que a resistência à mudança na forma como se escreve é muito forte na idade adulta (precisamente devido a uma personalidade mais cristalizada), pelo que até mesmo os efeitos gráficos da terapia através da escrita serão pouco visíveis e, também por isso, de efeito duvidoso.

Contudo, se em vez de uma terapia pretensamente reversiva for empreendida uma simples reeducação da escrita de crianças e pré-adolescentes disgráficos, então poderemos daí obter algumas vantagens reais e efectivas: a satisfação de um aluno em conseguir uma letra mais bonita, o que não quer dizer que para tal suceder seja suficiente exercitá-la pois, como tenho referido, a escrita é sobretudo uma consequência. A escrita reflecte a personalidade. Logo, uma pessoa progressivamente mais satisfeita e mais segura de si também poderá alterar ligeiramente a sua escrita, como reflexo dessa mesma atitude.

Esta questão é muito complexa e mereceria um tratamento mais aprofundado. De qualquer modo, alguns autores mais antigos que se debruçaram sobre este assunto, tiveram uma perspectiva diferente, talvez por não terem ainda bem a noção dos limites da emergente disciplina que usa a escrita como meio para diagnosticar a personalidade humana. É muito mais fácil e vantajoso ignorar estes limites. Por isso, há que ter cuidado com o que se lê sobre este assunto.

 

 

 

Li o tópico anterior e fiquei curiosa. É correto afirmar que uma pessoa que escreve com a mão direita se passar a exercitar-se com desenhos escrever letras com a mão esquerda irá com isso treinar o hemisfério direito do cérebro, tornando a pessoa mais criativa e objetiva nas suas decisões em especial no próprio trabalho que desempenha dentro da empresa em que trabalha?

Não vejo que isso tenha sido inequivocamente provado ou sequer demonstrado. De qualquer modo, a haver a utilidade que alega existir nesses exercícios, aplicar-se-á em idades próximas dos 4 a 7 anos e não na idade adulta.

 

 

 

Tenho um aluno que possui um desejo obsessivo para escrever; ele me disse que pode passar horas seguidas escrevendo dezenas de folhas em diferentes tipos de letras e escrita sem se cansar. Ele é casado e a esposa e amigos dele acham isto absurdo e fora do normal e lhe fizeram uma sugestão para consultar uma psicóloga. Ele foi à tal psicóloga e ela disse que ele é grafomaníaco e necessita de fazer um exame e terapia para entender o que lhe está acontecendo. Ter grafomania é distúrbio psicológico e tem tratamento?

Creio que não pode ser considerado um distúrbio, mas antes um efeito de que algo pode não estar bem. E quanto à terapia, reitero o que já disse em tópicos anteriores: não se deve atacar o efeito, mas antes procurar descobrir a causa, o que só um psicólogo competente pode fazer.

 

 

 

Gostaria de saber se existem actualmente professores de caligrafia em Portugal, isto é quem ensine a arte caligráfica.

Não conheço qualquer referência.

 

 

 

Existe algum livro publicado em Portugal sobre caligrafia?

Sim, existem vários. Um exemplo: Silva, Joaquim José Ventura da (1777-1849) - Regras methodicas para se aprender a escrever os caracteres das letras ingleza, portugueza, aldina, romana, gótica-itálica e gótica-germanica acompanhadas de um tratado completo de arithmetica. 2ª edição accrescentada, correcta e augmentada. Lisboa, Impressão Régia, 1819.

Faça uma pesquisa na Biblioteca Nacional de Portugal ou em "Google books"

 

 

 

 

 

 

 

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Última actualização: 11/17/09