Towards a Handwriting Psychology

APLICAÇÕES DA PSICOLOGIA DA ESCRITA

 

 

 

 

A Psicologia da Escrita permite, essencialmente, avaliar uma unidade psicossomática – determina sobretudo tendências e predisposições. O estudo da escrita não permite determinar os gostos concretos ou atitudes de um sujeito, mas pode determinar graus de predisposição a determinados gostos ou atitudes.

Assim sendo, em condições óptimas, o estudo da escrita é talvez a melhor ferramenta de psicodiagnóstico para determinar as tendências mais básicas de um indivíduo, frequentemente escondidas sob uma couraça caracterial protectora. Daí que o estudo da escrita seja cada vez mais utilizado em áreas da Psicologia onde se exijam conclusões globais a longo prazo:

  • nos recursos humanos, a capacidade de determinação de tendências latentes mas não manifestas permite avaliar com alguma fiabilidade as reacções possíveis de um candidato, ao longo de vários anos na empresa e em situações de desgaste ou stress;
  • na orientação profissional, permite auxiliar a correcta escolha de uma profissão, decisão essa que terá que se adequar às tendências básicas do sujeito, eventualmente não ainda totalmente manifestas, como no caso dos jovens;
  • e mesmo na orientação matrimonial, permite avaliar tendências e predisposições que, perante um fase de enamoramento em que tudo parece ser feliz, não são perceptíveis através de outros testes, mas que irão certamente manifestar-se com o previsível desgaste da relação.

Por outro lado, na área criminal, o estudo da escrita é muitas vezes fundamental para que a Justiça possa decidir a culpa ou a inocência de alguém.

Na adolescência – período em que mais se escreve e em que a escrita mais se altera, sendo também o período em que a nossa personalidade se estrutura – a escrita é muito útil como forma de diagnóstico, sobretudo por parte de professores e mesmo dos pais, dado que é um material abundante e muito expressivo, sendo geralmente discreto o seu estudo.

O autoconhecimento é também uma aplicação importante da Psicologia da Escrita, permitindo a cada pessoa tomar decisões mais seguras, equilibrar e re-equacionar objectivos e relações pessoais, aperceber-se melhor de quando está a passar dos seus limites em termos de stress, etc.

Na medicina, a escrita pode ser usada como teste reactivo em determinadas patologias e servir como método auxiliar de diagnóstico, sobretudo de doenças degenerativas como Alzheimer ou Parkinson.

Também na investigação histórica e biográfica a escrita é útil, pois pode ser estudada mesmo após o falecimento de uma pessoa.

 

 

 

A Psicologia da Escrita como ferramenta para as empresas

Mesmo com a proliferação de profissionais incompetentes (saídos de institutos menos rigorosos), o recurso à escrita como ferramenta de diagnóstico aplicado aos recursos humanos, é já um dado adquirido na Europa. Aliás, esta é a área em que o estudo da escrita é mais utilizado, particularmente na selecção de pessoal.

Em geral, a utilização desta técnica baixa enormemente os custos, especialmente quando se trata de muitos candidatos com curriculum semelhante para uma só vaga. O estudo da escrita permite uma rápida triagem primária de candidatos, evitando os custos e a demora que implicaria a aplicação de uma bateria de psicotécnicos a todos eles.

A Psicologia da Escrita permite também um head hunting mais eficaz, a nível de quadros superiores, importantes possibilidades a nível de estudos de parcerias comerciais, do out-placement, etc.

No fundo, o estudo da escrita aplicado às empresas possui duas grandes vantagens: sem se perder fiabilidade no diagnóstico (por vezes ganhando-se mesmo em fiabilidade, se para o estudo existir material suficiente) obtemos resultados em menos tempo (e tempo é dinheiro) e com menores custos à partida.

O estudo da escrita é por vezes tão discreto e eficaz que se torna indiscreto. Os regimes nazis e comunistas proibiram-no, por ser um tipo de estudo perigoso para a segurança do estado. Num dos estados norte-americanos, foi há alguns anos produzido um acórdão que proibia a sua utilização nas empresas, alegando-se que atentava contra a intimidade dos candidatos. Este exagero tipicamente americano (país, aliás, onde este género de estudos é muito utilizado mas também muito mal utilizado) não só prova até que ponto um manuscrito permite tirar conclusões sobre o seu autor, como também levanta importantes questões éticas. Infelizmente, em Portugal estas questões não se podem colocar seriamente, já que o vazio legal é quase total.

Na Europa, o estudo da escrita, numa perspectiva de diagnóstico, é sobretudo utilizado como método gradualmente mais aceite em alternativa aos contestados testes projectivos, uma vez que estes estão a ficar progressivamente viciados pela sua corrente utilização.

Em condições óptimas, o estudo da escrita alia grande abrangência e segurança de diagnóstico. O facto da escrita poder ser utilizada como teste, sem o ser, evita os comuns óbices dos testes. Não admira, pois, que a escrita seja cada vez mais utilizada como método de diagnóstico na área dos recursos humanos. Em França, a utilização da escrita na selecção de pessoal é até um importante critério para a certificação das empresas de Recursos Humanos (equivalente à norma ISO 9000).

Num estudo publicado em 1996 pela Universidade de Berna[1] e realizado a uma enorme amostragem de empresas suíças de recursos humanos, constatou-se que o estudo da escrita dos candidatos era o primeiro método psicológico utilizado (em 67% de todos os casos), muito à frente de todos os outros métodos projectivos clássicos.

Estes dados são altamente reveladores da revolução que esta técnica pode trazer aos recursos humanos em Portugal. No entanto, uma vez que no nosso país o ensino académico da Psicologia da Escrita ainda não existe, é corrente o recurso a especialistas estrangeiros que esporadicamente residam em Portugal, em especial por parte das empresas multinacionais (sobretudo francesas).

Há alguns anos, uma empresa de recursos humanos sediada no Porto recebeu um serviço de selecção por parte de uma empresa espanhola que lhe exigiu também um parecer baseado na escrita dos candidatos! Perante tão estranha exigência (já que normalmente as empresas deixam aos especialistas as escolhas dos seus próprios métodos), a empresa de recursos humanos em causa tratou de conseguir alguém que lhe prestasse esse tipo de serviço, já que certamente não quereria perder o cliente!

Este exemplo – seguido por outros nos últimos anos – permite perceber que:

- à parte alguns incompetentes que presumem estudar a escrita mas não fazem mais do que vender ilusões a pessoas que não estão ainda bem informadas, praticamente não existem especialistas no estudo da escrita em Portugal.

- Foi o facto de uma empresa estrangeira ter exigido este tipo de estudo que obrigou a dita empresa portuguesa a repensar os seus métodos e a optar por recorrer à Psicologia da Escrita com mais regularidade, comprovada que foi a sua fiabilidade.

Actualmente, são ainda poucas as empresas portuguesas que já utilizam esta técnica. Não só por desconhecimento, mas também pela má imagem que dão às empresas alguns supostos profissionais. Aliás, cremos que ainda não existem verdadeiros profissionais no tema em Portugal. Os anúncios que pedem currículos manuscritos, comuns em outros países, em Portugal são ainda raros e muitos não se destinam a qualquer estudo deste tipo.

No entanto, o panorama está a alterar-se rapidamente. Os cursos livres que se têm realizado desde 1994 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (maioritariamente frequentados por estudantes de Psicologia e psicólogos), bem como a alguma investigação que começa já a ser feita para validar e adaptar a Psicologia da Escrita ao contexto sociocultural português auguram, num futuro breve, o aparecimento de alguns técnicos habilitados. Isto, principalmente no Grande Porto, já que em Lisboa ainda se mantém sobretudo a velha ideia de que o estudo da escrita é um hobbie das elites ociosas e, consequentemente, este tipo de estudo não se tem regido necessariamente por parâmetros de cientificidade.

Os factos atrás descritos demonstram bem o atraso estrutural português, que tem impedido uma equiparação europeia das empresas portuguesas de recursos humanos, em termos de competitividade. Se, em condições óptimas e na maior parte dos casos, o estudo da escrita permite conclusões iguais ou mais seguras do que os testes clássicos, em menos tempo e com menos custos, não será já tempo de os empresários portugueses acordarem e se actualizarem?



[1] THOM, Norbert / ZAUGG, Robert - Recrutement et seléction du personnel dans les entreprises suisses.

 

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© Francisco Queiroz, 2004

Última actualização: 12/04/07