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Integrated Territorial and Urban Conservation
Restoration of Architectonic and Industrial Heritage
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Uma visão pessoal da formação contínua de professoresFrancisco Queiroz
Nunca fui professor do ensino básico ou secundário. Contudo, quando comecei a fazer formação de professores, tinha já experiência de formador junto de estudantes universitários, sendo que por várias vezes tive alguns docentes como formandos. Por outro lado, tenho muitos professores na família e foi precisamente por influência de familiares que tomei a iniciativa de pedir o estatuto de formador ao Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua. Na altura, fi-lo um pouco a contragosto, pois as referências que me davam da formação contínua de professores eram maioritariamente negativas: falta de motivação dos professores, pouco rigor na avaliação e, sobretudo, muitas acções sem qualquer utilidade prática ou ministradas por formadores sem suficiente competência pedagógica. Após alguns anos de experiência, constatei que estas referências negativas são reais, mas não podem ser generalizadas, sendo que as culpas para que parte da situação ainda se mantenha têm de ser repartidas. Por outro lado, também encontrei na formação contínua de professores alguns aspectos positivos que inicialmente não previa. Suponho
que não seja um formador com aquele perfil mais habitual. A minha
perspectiva sobre a formação de professores não será, pois, a
mais comum, até pelo facto de ser um
formador com maior leque de oferta de formação do que a grande maioria
dos formadores. De facto, até hoje, ministrei já quatro acções:
"História da Arte Portuguesa: a face visível da nossa história das
mentalidades"; "Compreender a cidade: a história do urbanismo";
"Gaia: Património e história local" e "Da
infância à juventude: Psicologia da Escrita e do desenho". A acção "História da Arte Portuguesa: a face visível da nossa história das mentalidades" surgiu por minha iniciativa e foi proposta porque sabia bem os problemas que as matérias de História da Arte colocavam junto de professores com formação em História. Senti isso mesmo como aluno e, uma vez que a minha formação académica era – por contingências várias – em História da Arte, julguei ser oportuno contribuir para que as gerações mais novas não passassem por aquilo que eu próprio tinha passado: as matérias de História da Arte no currículo da disciplina de História do ensino secundário eram negligenciadas, sendo passada a imagem de algo insípido e aborrecido, quando o estudo da História através da arte é a forma mais motivante de ensinar História. Em suma, senti obrigação de corrigir, dentro do possível, uma lacuna que me tinha marcado de forma negativa como aluno, a tal ponto que quando entrei para a Faculdade de Letras do Porto no curso de História da Arte (que não era a primeira opção) procurei logo mudar de curso (embora sem sucesso), precisamente porque tinha uma imagem muito negativa do tema. Apresentei primeiramente a referida acção ao centro de formação da Associação de Professores de História, que a recusou. Foi o Centro de Formação de Paredes que acabou por aceitar a proposta e a acção decorreu de forma bastante satisfatória. Contudo, a recusa inicial da Associação de Professores de História e as razões invocadas fizeram-me compreender algo que, nos anos seguintes, acabaria por confirmar amplamente: um dos grandes problemas actuais da formação de professores é precisamente o facto de esta ser feita por professores, com centros de formação dirigidos por professores. É óbvio que são os professores quem melhor conhece as lacunas a colmatar na sua própria formação. Porém, muitos centros de formação tendem a cair numa espécie de corporativismo: não olham à qualidade dos projectos, mas sim à conveniência de agradar a alguns colegas formadores. Assim, persistem muitas acções mal ministradas e com formadores claramente incapazes, graças ao beneplácito dos centros de formação e à conivência passiva de muitos formandos, que temem fazer as devidas críticas com receio de não obter os respectivos créditos, até porque o mundo do ensino é relativamente pequeno e bastante fechado. Ao contrário do que sucede com os estudantes universitários, os docentes na posição de formandos gostam muito de intervir nas sessões e de fazer discussão – bastando que o formador os coloque à vontade. Assim, as sessões tornam-se mais interessantes mas, por vezes, mais barulhentas e com menos tempo disponível para passar conhecimentos novos. Contudo, tenho notado alguma dificuldade por parte dos formandos em assimilar novas ideias, sobretudo tratando-se de temas directamente relacionados com a sua formação académica. Suponho até que a cristalização dos conhecimentos e métodos por parte de muitos docentes com mais anos de serviço é um óbice com o qual se debaterão todas as outras acções de formação. Deste modo, as acções de formação têm de ser muito mais do que mera aquisição de novos conhecimentos, sendo também verdadeiros fóruns de discussão sobre assuntos pertinentes para a docência. É assim que tenho encarado a minha actividade como formador. Por vezes, dá-me a ideia que as acções podem até funcionar, para os formandos, como catarse de toda a tensão profissional acumulada ao longo da semana, sendo paradoxal que a indisciplina que os professores tanto procuram combater nas suas turmas se manifeste ocasionalmente neles próprios durante as acções de formação, sobretudo como resultado da sua motivação para os temas em discussão, sendo necessário bastante tacto para poder conduzir as discussões de forma a que todos fiquem satisfeitos e se possa avançar no conhecimento, através da troca de experiências. Este aspecto é obviamente uma característica de acções onde se privilegie a discussão e onde o formador é constantemente confrontado com situações novas, às quais tem de dar resposta. Seria bem mais fácil uma acção em que apenas se debita matéria, por vezes não motivadora, sendo nesses casos comum haver docentes que quase adormecem nas sessões e/ou que procuram dar o máximo de faltas possível (segundo aquilo que os próprios formandos relatam). Felizmente, nunca alinhei por esse timbre e prefiro que as sessões sejam participadas e motivantes. Aliás, logo na primeira acção que ministrei, conclui que a motivação dos professores para uma melhoria das suas capacidades profissionais era bem maior do que julgava. De acordo com o que me tinham relatado inicialmente, estava sobretudo à espera de professores cansados, sem interesse na formação e só interessados nos créditos. É claro que confrontei-me com alguns formandos bem próximos deste perfil, alinhando pela lei do menor esforço. Porém, apesar do cansaço, noto que existe uma maioria de professores realmente com vocação para esta profissão e isso é um bom sinal. Infelizmente, muitos novos interesses despertados pelas acções que ministrei tornam-se algo efémeros. De facto, o desgaste provocado pela actividade docente não ajuda em nada a que estes formandos se dediquem ao aprofundamento ulterior dos temas. Aliás, notei uma certa fobia nos formandos relativamente ao habitual "bombardeamento" com fotocópias e bibliografia estéril, que acabará por nunca ser lida. Os docentes pretendem algo mais prático, algo mais ligado à realidade e com grande pertinência para a sua actividade. A segunda acção que ministrei - "Compreender a cidade: a história do urbanismo" - pretendeu ser a continuação da acção "História da Arte Portuguesa: a face visível da nossa História das mentalidades". Apesar de todos os condicionalismos e problemas ocorridos na inscrição dos formandos, constatando-se que muitos dos participantes na anterior acção (que tinham pedido esta nova acção explicitamente) não se tinham inscrito, julgo que a acção decorreu de forma positiva. Aqui notou-se também um dos problemas mais concretos da formação contínua: as acções destinadas apenas a um ou a dois grupos de docência são muito úteis em termos de formação científica adicional, mas geralmente não têm viabilidade, dada sobretudo a pulverização da oferta de formação, notando-se uma preferência dos docentes por acções mais generalistas, onde não estejam junto de colegas da mesma área e, assim, não se sintam intimidados pela exposição pública das suas lacunas de formação. É uma pena que assim seja. Em minha opinião, para cada docente deveria existir obrigatoriedade de frequência de uma acção de formação em área científica específica do seu respectivo grupo por cada três acções frequentadas. Isto, desde que os respectivos formadores possuam muito maior formação científica do que os formandos (o que nem sempre acontece) e desde que a selecção das acções pelos centros de formação seja mais rigorosa. Isto leva-me a outro problema, talvez um dos mais sérios: os centros de formação necessitam auscultar os docentes para saber o que eles precisam em termos de formação. Ora, nem todos os centros o fazem. Mesmo os que o fazem, acabam por apresentar programas de formação que ignoram essas necessidades e se baseiam numa espécie de círculo de amigos formadores que se eterniza, mudando-se os títulos das acções para acabarem sempre a abordar o mesmo assunto. O mais grave, porém, é quando os centros de formação procuram formadores especificamente para temas pedidos pelos docentes e, depois, estes não se inscrevem nas acções. Tive oportunidade de verificar isso mesmo. A acção "Gaia: Património e história local" foi a única que até hoje ministrei sob proposta de um centro de formação. O princípio é correcto, mas tenho plena consciência de que só ministrei essa acção porque alguém não quis ter o trabalho de a preparar. Ou seja, haveria já um formador dentro do círculo de colaboradores habituais do centro de formação, a quem foi proposto esse tema. O desafio não foi aceite, certamente porque é sempre melhor ir repetindo os temas que temos já trabalhados do que investir tempo num novo tema. Efectivamente, a referida acção foi a que mais trabalho me deu a preparar e, apesar de ter sido muito útil - e até com um carácter transversal, acabou por ser desperdiçada, já que só se realizou duas vezes, quando – na minha opinião – deveria ser uma acção ainda hoje a ser ministrada e em mais do que um centro de formação no referido concelho. Cheguei a propor essa acção a outros centros, mas sem sucesso. Por vezes, não se dignaram sequer a responder-me. Estes casos reflectem apenas mais algumas das contradições da formação contínua de professores. Em todo este contexto, notei que existia alguma rivalidade entre centros de formação, ou antes, entre directores de centros de formação. Efectivamente, em alguns casos, é muito difícil a passagem de uma acção que já funcionou num centro para outro centro – de modo a abranger geograficamente outro leque de formandos. A acção "Da infância à juventude: Psicologia da Escrita e do desenho", que foi a última que comecei a ministrar, foi também a que mais vezes funcionou. Trata-se de mais um caso em que o tema da acção necessitaria ser ministrado em mais do que um centro de formação, em mais do que uma área geográfica. É irónico que nenhum centro de formação do Porto e de Gaia tenha aceite a minha proposta quanto a isso, quando a formulei em 2002. Efectivamente, nos últimos tempos, ministrei já três pequenas acções de seis horas, em escolas, a pedido de grupos de professores. Num dos casos, a acção foi mesmo paga pelo próprio bolso dos docentes. Este é um sintoma de que algo está mal: quando os professores precisam de se juntar de modo a chamar alguém à escola para lhes dar uma formação – sem, com isso, obterem créditos – é sinal de que os centros de formação dessa área estão desfasados das necessidades de formação dos respectivos docentes! O programa da acção "Da infância à juventude: Psicologia da Escrita e do desenho" tinha já alguma maturidade antes de ter sido ministrado a docentes, uma vez que tenho leccionado as referidas matérias a estudantes universitários e a alguns professores desde 1994. Assim, compreende-se também porque é uma acção que resulta bastante bem e suponho que seja necessário continuar a realizá-la, sobretudo em outras áreas geográficas (neste momento, a acção decorre em Paredes e irá também decorrer em Lousada). Infelizmente, não existem mais formadores especializados para a ministrar e, como não ando nisto da formação de professores à custa de amizades prévias, mas simplesmente porque me tenho sentido útil, talvez esta formação de grande interesse acabe por só estar disponível ao nível do ensino superior e os docentes realmente interessados terão de se sujeitar a frequentá-la sem quaisquer benefícios para progressão na carreira.
ConclusãoAs
acções que tenho ministrado revestiram-se todas elas de grande interesse
e de utilidade. Contudo, para um formador não é motivante verificar que
a qualidade do seu trabalho nem sempre é devidamente reconhecida ao nível dos
centros de formação que pautam a sua oferta de formação por
conveniências alheias à qualidade dos formadores e das acções.
Assim,
proponho as seguintes alterações à orgânica actual da
formação contínua de professores:
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