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Integrated Territorial and Urban Conservation
Restoration of Architectonic and Industrial Heritage
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Seis quadros em forma de mitos
(crónica de uma viagem por Itália em 1998) Após aquela viagem a Itália que insistentemente alguém exigiu que fosse feita, abri bem os olhos e, enquanto não ia vendo os monumentos must que existem nesse país fascinante, fui recebendo uma data de impressões que me fizeram rever tudo o que nesta Lusitânia se diz sobre os italianos (e mesmo sobre os outros povos latinos europeus). Por isso, apresento aqui alguns quadros mitológicos, em jeito de provocação: Quadro n.º 1: quem é mais rico? Se me conseguirem convencer que mais sem abrigo, mais desumanização urbana, mais subculturas marginais, menos sorrisos nos rostos é sinal de maior riqueza, então talvez eu possa aceitar que, em Itália, o norte é mais rico do que o sul. Mas, mesmo assim, passar de França ao norte de Itália é o mesmo que sair da ordem e entrar na desordem. Adivinhem onde estão os comboios mais sujos da Europa... Em França é tudo aborrecidamente ordenado. Os comportamentos sociais parecem, às vezes neuróticos, há que explodir por qualquer coisa, mas muito civilizadamente. Passar por Espanha é simplesmente para esquecer. Quadro n.º 2: Itália é o país do romantismo!? Parece-me um romantismo muito limitado ao quarto de hotel. Só os turistas parecem achar isso, sorrindo de forma desmesurada e cantando com um injustificável brilho nos olhos canções americanas, enquanto são embalados pelos gondoleiros (a classe profissional onde militam todos os broncos de Veneza). Contem o número de casais em deboche público na nossa terrinha, ao Domingo, e em Itália ao longo de toda a semana: verão que os portugueses são muito mais agarradinhos. Quadro n.º 3: Florença, Pisa, Veneza, Roma, Milão é o prioritário a ver em Itália? Seria talvez preferível perdermo-nos em Itália e encontrar os povoados mais curiosos como Montepulciano ou Pienza, as cidades de que ninguém fala e que possuem um carácter forte como Lucca ou Ferrara. A esquecer completamente Pisa (por favor não cedam à tentação de ver a torre pendente) e também todas as grandes cidades no Verão. Não confiar que haja alojamento, mesmo quando nos dizem que há. Contar com portas fechadas na cara, mesmo quando os monumentos estão abertos e com pessoas no seu interior. Contar em quase ser atropelado em Pavia e poder ir de barco até ao Cemitério de Veneza. Quadro n.º 4: somos mentalmente mais parecidos com os espanhóis do que com qualquer outro povo europeu? É basicamente um erro crasso. Em muitos aspectos são os italianos mais parecidos connosco: a forma como se estão a marimbar para certos tiques de civismo, a loucura nas estradas, a abertura ao que vem do estrangeiro, a paisagem geo-humana (sobretudo da Toscânia), as "guerras" norte-sul, os programas televisivos de futebol no horário nobre. E os espanhóis olham muito para o seu próprio umbigo, com aquela curiosa dificuldade em falar qualquer língua que não a deles. Quadro n.º 5: Portugal é uma província de
Espanha? Para todos
os efeitos é verdade, por muito que as fronteiras pareçam mostrar o contrário.
Cheguei a Pádua e fui ao posto de turismo. Pedi um guia. Perguntaram-me em que
língua. Como estava na cidade do santo português, resolvi arriscar:
«têm em português?» «Não, mas temos em
espanhol», diz-me a jovem toda contente. Rematei: «então dê-me
em italiano...». Não me importei que as freiras de Ferrrara me
tivessem perguntado apenas pela Irmã Lúcia quando souberam que eu era
português. Mas, por favor, não me digam mais «Ah! Portoghese?
Io parlo anche un poco di spagnolo!» Quadro n.º 6: o que há de português em Itália? Apenas 4 coisas: as sardinhas enlatadas nos supermercados (que dizem estar em decadência); os livros de Saramago, Fernando Pessoa e poucos mais nas secções ibéricas das livrarias; o Rui Costa e (quem diria) os cursos de língua portuguesa. Mas não se pense que estes cursos existem por imperativos culturais: o português é uma língua exótica! Quando falamos português em Itália, dizem-nos que lhes parece estarem a ouvir russo! Quadro n.º 7: as mulheres e os homens italianos são mesmo muito bons/boas? É verdade, mas só se aplica ao centro da Itália (talvez porque ali existem mais semelhanças físicas com os portugueses?!). Por outro lado, o verdadeiro segredo delas/deles é andar sempre impecavelmente vestidos, por vezes demasiado. Perguntei a uma amiga italiana: «se me visses na rua e não me conhecesses, dirias que eu era de que país?» Ela jurou que seria um mediterrânico. «Mas... espanhol?» «Não, não é bem...» «Português?» «Talvez também não. Mas, decididamente não italiano». E qual foi a justificação? Porque me vestia mal! Dou o braço a torcer: ainda é de Itália que vem quase toda a moda que vestimos, que vem quase todo o design, seja do que for. Quadro n.º 8: um português no estrangeiro é sinónimo de um emigrante? Parece que é verdade, porque por Itália – em 3 semanas – não vi senão 2 pequenos grupos de portugueses. Os brasileiros também podem ser encontrados nos locais mais turísticos, mas em Itália parecem peixes completamente fora d'água. Em França é azar não haver um português a menos de 20 metros. Mas, quando em França me perguntaram em tom de quem tem toda a certeza "Vous êtes anglais!?" e eu emendei "Portugais!", a senhora só não caiu porque estava bem apoiada na bagagem. Deve ter pensado: então que é feito do bigode, da barba de uma semana, da mala de cartão e do garrafão de tinto? Quadro n.º 9: come-se bem em Itália? Sim. Mas, para a próxima, preferia comer menos merendine, abusar mais da pasta, aproveitar a variedade e o preço dos sumos de fruta e rejeitar a tentação da cerveja (cerveja é o "vinho fino" dos italianos). E só há pouco tempo os italianos se lembraram que se podia vender leite chocolatado em pacotes! Pudera, para quem come tanto queijo... Quadro n.º 10: o melhor sítio do mundo para viver é Portugal? Decididamente não é Espanha, nem França. Porém, viver em Itália – sobretudo na Umbria e na Toscânia – é quase viver fora cá dentro... Francisco Queiroz, 1998
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